polacodabarreirinha

Poesia, música, gracinhas e traquinagens

segunda-feira, fevereiro 02, 2009






Manoel de Barros


Desse poeta tudo que eu falar cospe sangue, bicho, pele, onça. O cara inventa de colher vento e com as mãos à feição de conchas sair mostrando pra todo mundo. A gente vê o vento, cuida estar pegando e ainda leva um pouquinho pra casa pra guardar debaixo do colchão. A poesia do Manoel é cheia de vazios que preenchem de belezas as insignificâncias, essas coisas pequenas que se perdem de infinitos. Às vezes lendo suas poesias, acho que rezo. Deus tem carências desses desvios, porque Manoel tem sentidos que até Ele duvida. Quem tiver ouvidos de ouvir, leia pra sentir o gosto e o cheiro de mato. Do tato nem falo nada porque primeiro a gente tem que pegar o espírito da coisa. E isso pode ser muito difícil pra quem não fala a mesma língua.

Polaco da Barreirinha
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Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore porque fez amizade com muitas borboletas.



A arte de infantilizar formigas


Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios.
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.



MATÉRIA DE POESIA



Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato - os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, grampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem
nascerem em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e às andorinhas de junho.



Manoel de Barros

2 Comentários:

Às 02 fevereiro, 2009 , Anonymous Anônimo disse...

esse é demais...e a seleção especial


ruga

 
Às 03 fevereiro, 2009 , Anonymous leila amaral disse...

Genial e o texto de apresentação diz tudo.

Bj

Leila

 

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