polacodabarreirinha

Poesia, música, gracinhas e traquinagens

quinta-feira, fevereiro 12, 2009



O DIA QUE EU MATEI O WILSON MARTINS




Capítulo 1

Foi profundo, Wilson.

Mais de cem mil pessoas presentes ao enterro
Dão adeus ao mestre da manha e da moda
Em palavras difíceis e inocentes de erro.
A Gazeta do Povo Extra propõe e roda
A beatificação do morto ainda quente;
A Câmara, a maior nova pedreira urgente. (1)

Nem durante o apagão vendeu-se tanta vela!
No câmbio negro, de hoje, até as de aniversário,
Com números e letras, foram à janela
Pra iluminar o último itinerário,
A preço de completo e raro candelabro.
E, assim mesmo, pra achá-las foi obra do diabo.

Se abriram centenas e centenas de faixas,
Em letras garrafais, homenageando o morto,
Pelas ruas e avenidas. No percurso, rachas.
Discípulos, legiões de fãs que, em desconforto
Visível e triste, choram copiosamente;
Mas, a grande maioria olha simplesmente.

Alguém inaugurou o primeiro milagre,
Aos berros: “Eu toquei em seu caixão
E fiquei são. Agora, sou mais um que sabe!”
E continuou berrando: “Sou um sabichão,
O bom e velho Wilson (2) colocou uma lâmpada
Onde, na escuridão, reinava Lobsang Rampa!”

Alguns param e querem saber pormenores;
Outros seguem em frente, empurrados, forte
E incessantemente, pela massa e seus suores
Que, misturados às lágrimas, dão-lhe suporte
E dramaticidade. Aparentemente,
Todos têm chafarizes a jorrar pra sempre.

O cheiro provocado pelo esforço dá
À cena uma atmosfera mortalmente lúgubre
E carnicenta, a tal ponto que no céu já
Há, voando em círculos, o espectro de um abutre.
É a sombra da morte que persegue o féretro,
Como um sinal das trevas dado ao nosso cérebro!

Um congestionamento monstruoso toma
Conta das ruas, calçadas e acessos à cova,
Onde os vermes aguardam o corpo que tomba
Pra dar início à lauta refeição, tão nova
E fresca que há de sobrar somente as unhas,
Ossos e cabelos, para o horror das testemunhas!

Bom, mas isso não tem importância nenhuma.
O fato é que o Martins, vivo, era um ilustre
Desconhecido. Como é possível que reúna
Mais gente do que uma passeata contra o Bush?
Uma senhora idosa, gorda e varicosa
Até os braços, explica, em detalhes, vaidosa:

“A anulação de opostos, contradições, faz-se
Quando um dos membros deixa de existir, abrindo
Uma lacuna que, dependendo da classe
Ou amplitude, dá lugar a um labirinto,
Para Minotauro nenhum botar defeito.
E agora, Miguel Sanches Neto leva jeito?” (3)

Alguns, com palavrões, tentam calar a velha,
Porém, irredutível, ela continua:
“Está certo que o assunto aqui não se encerra,
A mesma multidão que hoje está nesta rua
E veio homenagear o mestre literário,
Amanhã é muito comum voltar ao calendário

E marcar em vermelho a data do feriado
Novo. Minha formação de diarista serve
Pouco para ir mais longe; porém, de bom grado
Seria ouvir agora de alguém a quem se deve
Eleger. Afinal, ao rei morto, rei posto.
Como já disse, Sanches Neto faz o meu gosto.”

O pipoqueiro, até então calado, estoura:
“Cala essa boca, bruxa! O pragmatismo ímpio,
Farisaico, da classe operária é cenoura
Enfiada no nosso rabo. Há que se jogar limpo,
Essa substituição envolve muitos nomes
De peso. Uma eleição tem que ser nos conformes.”

Um guardador de carro, que ouvia de orelha
Em pé, retruca: “O povo não sabe votar!
Essa história da inteligência brasileira,
Pelo menos pra mim, alguém tem que contar
De novo. A tal poesia do Bruno Tolentino
É ouro de tolo, ao Wilson faltou tino.”

Diarista, lavadeira de estirpe raríssima,
Não se dá por vencida: “Concordo, ele errou
Feio. Aliás, de poesia mesmo coisíssima
Nenhuma ele entendeu. Na trave ou dentro do gol,
A bola faz placar diferente. Talvez
Seja esse o caminho pra saber a da vez.”

Aplaudida de pé, a anciã não cabe em si,
E retoma, erudita: “A meu ver, com Leminski
Ele cometeu grande injustiça. Reli,
Dias atrás a matéria, tomando meu uísque,
E fiquei assustada. Superficialidade
Tamanha deveriam proibir nesta cidade.”

Com ganas de intervir, freio o impulso mortal.
À plebe rude restam poucas coisas, mínimas
Referências, escassas palavras - sal
Que infertiliza o chão - de preferência, as cínicas
Que se desdobram sórdidas e incompreensíveis.
Eu não estou nem aí e me alço a outros níveis.

Ao mestre, com carinho, estendo meus braços,
Longos, desajeitados, mas cheios de amor.
Tomo de um só tomo entre os estudos esparsos
E com ele ameaço universo e criador:
“Aqui pra vocês, lentes e inspetores, cânones
Desse lugar comum, ecos de mantras brâmanes,

Que se repetem pelos séculos afora,
Como se esse nosso coração, arca única
Da vida, fosse um fóssil perdido na história.
É preciso lembrar que o monge faz a túnica,
Reveste-a do mais santo respeito ou a lança
Ao fogo do inferno, onde nada mais se alcança! "


1. Wilson Martins – crítico, professor.

2. A Câmara Municipal de Curitiba, quando Leminski morreu, rapidamente se reuniu e arranjou um jeito de homenageá-lo. Dando então o nome de Paulo Leminski a uma pedreira, local onde se realizam shows. Em vida praticamente menosprezaram o poeta.

3. Escritor, crítico e amigo do Wilson Martins, de quem segue as pegadas.







Capítulo 2

O povo é mais um na multidão, Wilson.


O mar seria um filósofo de mão cheia, pena
Que pouca gente entenda suas claras lições.
Em seu fluxo e refluxo, à luz da lua plena,
Nova ou em quartos, muda a vista, construções
Caem, ilhas devastadas, pedras viram pó,
E, muita vez, apenas, por ser mar e só
Arranca da garganta um emocionado oh!

Força maior do mundo, sua água profunda
Modela e dá formato a essa superfície,
Que deslumbra e encanta e em terror afunda
Gigantescas vaidades como o Titanic.
A maré esvaziou, nada agora se parece.
O cadáver na cova, a última prece,
A vela que se consome e desaparece.

Flores murchas suspiram essências, perfumes,
Hálitos divinais, colorações pôr-do-sol...
A noite cai; estrelas, em grandes cardumes,
Aplaudem todo o lusco-fusco do arrebol.
Na dura laje, o morto, enrijecido, sonha
Solidões infinitas entre o bico da cegonha
E a caixa derradeira... nada mais que uma onda...

Nada mais...

Na catedral, um sino ensina ao silencioso
Transeunte a melodia mediúnica do bronze.
A alma é mais triste e só do que um vaso ocioso,
Quanto mais olhamos para dentro, mais longe
Ela se afasta e foge do corpo, que, por
Querer ser mais do que vaso que a guarda flor,
Não vê que a semelhança é sem tirar nem pôr.

Nos bares a conversa é uma só: o enterro.
“Duzentas mil, no mínimo!” Berra alegrinho
O gordo vesgo, trêmulo como um bezerro
Que acaba de nascer. De pouquinho em pouquinho,
O álcool começa a agir e põe fim à timidez.
Agora todos falam, sem respeitar vez
Ou ordem, como órfãos do quem sabe e do talvez.

“Cê tá louco, ô pudim de pinga batizada!
Não tinha mais de cem mil, isso exagerando...
E olhe lá! Curitibano só dá mancada.
Ô racinha pra gostar da hipérbole quando
Vai contar uma coisa qualquer!” Retrucou
Um manguaceiro querendo aparecer ou
Querendo confusão. E o pior é que encontrou!

Um polaco da gema mesmo, narigão
Disforme, cabelo loiro espiga, barriga
Barrilizada, deu-lhe um forte bofetão,
Dando início a brutal pancadaria. Se briga
Não dá camisa a ninguém, pelo menos tira.
Em questão de minutos, já faziam fila
Diante do espelho os farrapos adeptos da ira.

Graças aos deixa-disso, o bar volta ao normal
E a conversa, ao assunto. O polaco retoma:
“Na frente d’eu, ninguém, mas ninguém fala mal
De meu cidade. Aqui eu nasceu e se eu môra,(1)
Aqui eu me entero, junto com pai e mamãe meu.”
Lágrimas esguicharam, mas continuou seu
Discurso. “Eu leu Wilson, mas não entendeu.”

Um senhor, de aparência grave, até então
Quieto no seu canto, emocionado, emendou:
“O Wilson não escreveu para o nosso povão.
Ele o fez para mestres, estudiosos. Sou
Cada vez mais adepto desse raciocínio.
Sua intenção foi clara, adotou o ensino
Pra ajudar escritores, poetas. É um caminho.”

A garçonete ouve e não se contém: “Senhor!
Pelo amor de Deus! Menos, por favor, bem menos!
Se currículo fosse prova de valor,
O mundo não estaria assim, não é mesmo?
Verticalização de conteúdos gera
Aberrações, dialetos, e isso aí já era.
Quem quer chamar pinto, que encha o cu de quirera!”

A gargalhada faz tremer copos nas mesas.
O polaco partiu pro abraço todo doce,
Melado de emoções. “Eu já pagou despesas.
Mas abre outra conta, você como filha fosse!”
O grupinho, que ocupa a mesa central,
Diverte-se à farta, como se, na real,
Tudo ali parecesse engodo intelectual.

Mas quando um cabeludo, com pilhas de livros
Sob os braços, entrou, gritando e repetindo
O refrão: “Leiam livros, livro é para os vivos!”,
Foi que a cena nonsense afetou-os: “Que lindo!”
Diz a engrupadinha ruiva, tocando o óculos.
“Eu pra ver beleza nisso quero binóculos.
A fanfarronice burra me trinca os ovos!

O que é que tem de lindo nesse refrão? Me diz.”
O agressivo tom dá a impressão de algo mais.
Não é só um rapazola que quer ser feliz;
Ao contrário, insinua briga de casais.
No mesmo tom que ele vem, ela vai que vai:
“Me dá nojo essa empáfia. Parece meu pai,
Só fica no meu pé, me contrariando. Sai!

A beleza do gesto é que me comoveu.
Você é um idiota da objetividade,
Que não vê, na atitude dos outros, seu Eu
E por isso menospreza a capacidade
Alheia e interage pela negação.”
É mesmo impressionante o efeito da reação,
Quando as palavras provocam forte emoção.

O rapazinho sai do fundo da cadeira
E quase levita na atmosfera pesada
Que a ruiva deixou no ar. “Foi uma brincadeira!
Nada sério, eu só queria fazer piada,
Mas acho que foi mal. Melhor deixar morrer
Esse assunto e partir pra outro. Pode crer,
A essa infantilidade não vou recorrer!”

Disse tudo num único sopro e ajoelhou-se:
“Eu não quero que a gente brigue, meu amor.
Me perdoe se a magoei, não foi por mal. Se fosse,
Eu não estaria assim, pedindo por favor.”
Tristes lágrimas mostram o quanto foi fundo
Em seu coração. Ela, olhando o chão imundo
Em que ele se ajoelhara, cai em choro profundo.

“Culpa do Wilson, querido, culpa desse monstro
E suas análises do romance e da vida.
Deixei-me levar pela raiva, mas demonstro
Agora que nosso amor não é de despedida.
Não quero a intelectualidade, sou tua
Mulher, quero deitar completamente nua
E amá-lo como amam as cadelas da rua! "

(1) Os descendentes de poloneses têm muita dificuldade com a sintaxe e com a pronúncia dos RR. Assim, morra vira mora, enterro, entero e aí vai. Bem como invertem as funções sintáticas e utilizam o tratamento errado: sujeito na primeira pessoa e verbo na terceira. Isso lhes dá uma graça muito peculiar e talvez seja uma das razões por serem tão bem quistos e respeitados. É só lembrar da sintaxe e do falar errado certo do nosso ítalo-brasileiríssimo Adoniran Barbosa.



Capítulo 3

Não é fácil ser Wilson

“Todos os homens são mentirosos, trapaceiros.
Alguns, mais; outros, menos. Nós não somos nada.
Poucos dormem em paz sobre seus travesseiros;
A maioria quer é salvar sua alma penada.
Têm pesadelos de olhos abertos, vêem demônios
Na cola de seus calcanhares, rezam bíblias,
Lêem auto-ajuda, crêem nos avisos dos sonhos,
Depois cercam eletricamente suas ilhas.”

Disse e largou a pilha de livros na mesa,
Como se nos dissesse leiam, desgraçados!
Os cabelos revoltos dão-lhe uma beleza
Quase que feminina. Olha para os lados,
Como quem desafia e espera uma resposta,
Mas ninguém lhe dá bola. Querem saber mais
Da love story ao centro. Afinal, quem não gosta
De uma novela em tempo real, sem comerciais?

Apesar de engraçada, a cena comove
A todos. O polaco tem os olhos turvos,
Como se a qualquer hora, igual a um céu que chove,
Fosse despejar rios, milhões de metros cúbicos
De água, e nos afogar em suas mágoas profundas.
O tal senhor de aspecto grave está parado,
Algo parece lhe imobilizar as juntas.
Apenas seu olhar treme, maravilhado:

“Querida, nem toda a assimilação teórica
Resulta em saber prático. Você precisa
Separar sempre mestre e lição. Meteórica
É a vida; fugaz, o presente; imprecisa,
Toda e qualquer certeza. Mestres são caminhos,
Cabe ao discípulo buscar a trilha real.
O mais incorruptível entre os pergaminhos
Pode ser maculado por tintas do mal.

Culpar o Wilson é fácil, até muito cômodo,
Mas creio que a razão de todo sofrimento
Está dentro de nós mesmos. Perdoe o incômodo,
A uma prova de amor não cabe julgamento,
Mas não pude ficar indiferente ao seu
Desabafo e lhe peço desculpa outra vez
Por esse atrevimento. Não sei o que me deu,
Mas sei o que o amor comigo, um dia, fez.”

O seu semblante grave, pálido de espanto,
Transfigurou-se rapidamente. Porém,
Mantendo a calma, volta quieto ao seu canto,
Deixando todo mundo calado também.
Só depois de alguns longos segundos, a ruiva
Resolve falar: “Certo, o senhor está certo!
Foi leviano de minha parte tornar pública
Minha covarde e tola opinião, mas espero

De todos que aqui estão presentes o perdão.
O amor tem artimanhas sutis, armadilhas
Ardilosas. Com elas, nega ao coração
O entendimento e o mantém entre as presilhas
Da dúvida e do ciúme. Sou melhor ou pior
Do que alguns de vocês? Não acredito nisso.
Razões se têm de sobra, sabemos de cor
E salteado o que torna o peito movediço.

Se a mim, o amor faltasse, eu morreria de dor
E desespero, bem mais do que morro agora,
Que me sinto completamente viva. Por amor,
Guerras foram travadas pelo mundo afora.
Nações e mais nações sucumbiram ao jugo
Indiferente e cruel de suas grandes tenazes,
Quando não satisfeito. Inferior não me julgo
Se a dor desperta meus instintos kamikazes.

A verdade parece falsa, mas não é.
Este menino foi de uma tal humildade
Que, francamente, trouxe-me de volta a fé,
A esperança no futuro da humanidade.
Num dia triste como hoje, marcado pra sempre
Pela violência que assassinou nosso crítico
Wilson a sangue frio, foi muito comovente
Tudo que ele me disse. Só mesmo um anticristo

Poderia ignorar tanta nobreza de alma.”
A garçonete ataca: “Me dá nojo ser
Testemunha ocular da rebeldia sem causa
Dessa garota tola, que imagina ter,
Dentro do seu corpinho sexy, a experiência
De uma puta de rua, que leva pau do amante
E dá grana pro gigolô. Haja paciência!
Dessa escola, querida, já fui estudante.

E, para não mentir, me expulsaram graduada.
Fique aí com seu bofe, que a mamãe aqui
Tá fora desse blá-blá-blá!” A desbocada
Sai, rebolando mais que a miss Superagui.
“Sua vagabunda! Puta rampeira de merda!
Quem você pensa que é, pra falar assim, hein?!
Volte aqui, sua cadela! Está se achando esperta?
Vou te encher de porrada e não tem nhém-nhém-nhém!"

As duas partem pra porradaria, valendo
Tudo: tacle, dentada, arranque de cabelos,
Cuspe no olho do cu, chave de buça, dedo
No clitóris, unha encravada, pentelhos
Na língua, rala-coco, chupa-chupa, oba!
Meus queridos leitores, é tanto erotismo
Que eu já estou c’o meu duro. Ou pensam que é sopa
Ver duas boazudas pau a pau sem fetichismo?

Não vi ninguém a fim de separar a briga.
A essa altura, bêbados, putas, rufiões
E demais cidadãos de bem faziam torcida
Para uma das duas musas, soltando rojões
E gritos de prazer. As calcinhas à mostra,
Coxa ante coxa, sexo sobre sexo, bocas
Abertas, línguas, água nos lábios: amostras
Dessa sensualidade que jorra das loucas.

O senhor de aspecto grave manda uma bronha
Sob a mesa, pra bispo nenhum por defeito.
Seu bigode tremula, mas o sem-vergonha
Não está nem aí. Quer esporrear do jeito
Que sempre quis e foda-se o mundo todo.
A ruivinha, gostosa, mais se esfrega na outra
Do que luta. Seus gestos sensuais botam fogo
Nas entranhas da jovem que age como potra.

E as duas unidas, úmidas, súbito se olham,
Olhos nos olhos, mira e alvo, arco e flecha.
A garçonete, em transe, pelas mãos que a tocam,
Dá impressão de gozar, mas o pau recomeça.
A cena que se segue, Hollywood não filma,
Filmou ou filmará. Não são só os dois corpos
Exaustos de emoção; não, não são. Acima
Deles, toda a paixão humana, pelos poros,

Vaza e estrebucha. Nada mais importa... nada!
Dura bem pouco o arranque final: exauridas,
Caem lado a lado e histéricas, ira apagada,
Riem risadas que nunca riram em suas vidas.
Estão semi-nuas, belas como na Criação,
Inocentes, puras, livres de todo o pecado.
Vendo-as assim, em êxtase, sei como são
Os anjos e os porquês de Deus por tê-los criado.

Se fossem homens, é certo que não houvesse
Prazer em se mostrar, sem rubor, sem vergonha;
Mas, mulheres, estão acima do S.O.S.
Que certos machos lançam à moral medonha.
Saindo do torpor, a ruiva, contra-ataca:
“O Wilson vai pagar caro por esses anos,
Que perdi analisando orelha e contracapa
De suas obras repletas de erros e enganos!”

A linda garçonete beija-a suavemente
Na boca e, com a graça que algum deus lhe deu,
Levanta-se, fazendo bem rapidamente
Um leve alongamento: “Faça como eu,
Querida. Perder tempo é pra trouxa e jacu.
Cobrar o que de um morto? Você acreditou,
Fez dele o seu guru, então vai tomar no cu.
Escafandrista da alma é o Jacques Cousteau:

Esse sim foi bem fundo e mostrou as belezas
Do mundo, não ficou só falando e contando
Histórias mal-contadas. Não tenho certezas
Suficientes, nem pretendo tê-las quando
Envelhecer. Na dúvida, a vida é sempre
Melhor.” Falou com tanta franqueza que a ruiva
Retribuiu abraçando-a doce e meigamente.
Longe dali, na tumba, o vento faz a curva

E sobe aos céus, deixando folhas secas, pó
E cisco aos pés da cruz. Wilson não sente as balas
Nem o peso do chumbo no cérebro. Só,
Completamente só, dorme um sono sem asas,
Sem dores, sentimentos, sentidos, sem sempre...
No bar, a madrugada ferve um caldeirão
De egos desencontrados. Bem à minha frente
Os bebuns, em festa, brindam por qualquer razão.

Súbito, o cabeludo sobe na cadeira
E, lançando seus livros, a torto e a direito,
Com voz de mulher-macho e um pouco de gagueira,
Pelos nervos à flor da pele, berra: “Peito.
Te-tem que te-ter peito pra ser homem mesmo.
E o Wilson teve peito!” Uma gargalhada
De balançar o prédio e derreter torresmo
Interrompeu a hilária e mal-colocada

Introdução. Porém, refeito, recomeça:
“Sucumbir à pilhéria, ao chiste, ao escárnio
E à troça, desgraçados, é pra quem não presta.
Os homens elevados, de saber atávico
E inteligência nata, não se dimensionam
Por tão rasas medidas, apenas se valem
De seus conhecimentos e revolucionam
Ou criam barbaridades, como Hitler e Stalin.

De suas avaliações e julgamentos, todos
Vocês, sem exceção, se servem pra, depois,
Saber o que fazer. Não os trato por tolos
Nem por desavisados, mas sim por arroz
De festa, que está em todas e em lugar nenhum.
Não pagam nem a luz e querem botar banca,
Seus hipócritas, vermes, fariseus. É ruim,
Hein? Ser tal qual a noiva impura em veste branca,

Que quanto mais adoça o olhar, mais salga a alma.”
Ninguém entendeu porra nenhuma. Vazado
De luz, “o mulher”, perde totalmente a calma,
Quando descobre o apelido que haviam lhe dado.
Furioso, ele retoma um tom acima: "Merdas,
Vocês são uns panacas, não têm compromisso,
Transformam as esposas em objetos, servas
Ou múmias paralíticas, ruins de serviço,

Piores ainda na cama e péssimas consortes.”
Ia falar mais alguma coisa, mas voa longe.
“Fala mal de meu Ana, apanha, eu dá fortes
Muros no bariga, deixa escura a horizonte.”
O mulher quer xingar, porém vendo o poder
Do braço do polaco, recua e se encolhe.
Duas no estômago bastam e já deu pra ver
Que o pierogi é mole mas não é rocambole! (1)

(1) Pierogi, fala-se pirógui. Espécie de pastel, comida típica polonesa.
A expressão significa que a situação está mais pra salgada que pra doce.



Capítulo 4

Ao Wilson, as batatas?

Um currículo desses, sustentado em obras
Monumentais, geniais, sensacionais, demais,
Arranca muitos ohs e uhs dos outros cobras
Dessa nossa intrincada rede de jornais,
Revistas e publicações. “Literatura
Pra educação da massa: eis nossa questão!”
Dizem todos em coro, cada um na sua
Coluna, em igual tom, repetindo o jargão.

Falam disso e daquilo, em discurso monótono,
Verborrágico, cínico, sem coração,
Sem alma, e se aplaudem, achando tudo ótimo,
Porque só a massa bem socada dá bom pão.
Essa receita é simples e funciona sempre,
Aqui não se mexe em time que está ganhando.
Claro que, caso alguém morra, abre-se um parêntese
E a vaga deve ser de algum membro do bando.

Meu leitor ou leitora, essas duas estrofes
Acima representam parcialmente a inveja
E a desinformação daqueles que têm cofres,
Mas não têm o tesouro que aos olhos alegra.
Cheguei a essa conclusão durante o enterro.
Analisem comigo: foi fácil ser Wilson?
Escrever o que ele escreveu, é acerto ou erro?
O peso morto está sujeito à lei de Newton?

Eu não quero, aqui, ser o advogado do diabo,
Mas justiça se faça! Sei que ele foi pândego
Muitas vezes, leviano em outras, mas deu cabo
De sua missão de crítico, menor que o cândido (1)
Antônio, que lhe deu um belo piparote
Quando aprofundou o rastreamento dos conflitos
Existentes nas entrelinhas desse lote
De obras que dá bem uns dois ou mais infinitos.

E não pensem vocês, leitores, que o estudo
Dessas relações entre personagens, obras,
Sua significação histórica, foi tudo
Que o Wilson nos deixou. Não foi mesmo. De sobra,
Teve tempo ainda para ser professor,
Colunista, conferencista e palestrista.
Foi também um visionário conservador,
Mas faltou-lhe poesia para ser um artista.

Dia desses, numa fila de banco, escutei
Umas frases que ilustram o meu raciocínio.
Um senhor de cabelos bem brancos, nissei,
Barriga proeminente, porte semi-símio,
Com ares de doutor, foi quem as proferiu:
“Dizer que o Affonso Romano de Sant´anna
É o maior poeta vivo do nosso Brasil,
Da nossa literatura contemporânea,

No mínimo, é um grave erro de avaliação.
Você (falava ao filho que o acompanhava),
Por exemplo, estudou, dia e noite, um montão
De livros, apostilas e ainda buscava
Referências, pesquisas, fontes na internet,
E o que ganhou com isso? Só olheiras, cansaço
E um Q.I. que não é maior que o Nelson Ned,
Se me afirma que o Wilson é o rei do pedaço.

Ele pode ser muito bom pras nega dele.
Pra mim, não chega aos pés do grande professor (2)
Édison José da Costa. O Wilson é aquele
Periquito que leva a fama. Por favor,
Meu filho, poesia como a do Bruno ou do Affonso
Não te leva a lugar nenhum. Melhor seria,
Então, ser um pateta desmiolado, sonso
E morrer esquecido na periferia.”

“Pai, a História da Inteligência Brasileira
É obra de valores incomensuráveis,
Um tesouro. Ele me impregnou de tal maneira,
Que, pra manipulá-lo, faltam-me mãos hábeis.”
“Como você pode ser tão burro, meu filho,
E parecer inteligente? O teu avô,
Chegando do Japão, mendigo e maltrapilho,
Desembarcou na paz de um haicai de Bashô (3)

Ele não tinha nada e estava com tudo.
A verdadeira fleuma a poesia lhe dava.
E se o Brasil lhe impôs a língua, ele, mudo,
Fez das tripas o coração que tanto amava.
Suas entranhas nipônicas falaram alto
E o banzo não levou sua mente para a morte.
A alma de seus avós ainda toma de assalto
O pavilhão dos poetas e aponta o seu norte.

Meu querido e amado filho, se oriente!
Não pude ter a graça dos haicais de Issa (4)
No idioma original. Nem meu coração sente
A alegria da descoberta que aquela escrita
Icônica permite. Mas te digo agora,
Com toda a lealdade que um pai deve ao filho:
Nesse Augusto dos Anjos, que o Brasil adora,
Você vai encontrar poesia de encanto e brilho!

Que não te engane o tempo. Atual é quem diz
O que no coração se revela luz, força,
Alegria, santidade que te faz feliz.
Poesia não é palavra te levando à forca;
Muito pelo contrário, é apenas a mágica,
Que move o nosso mundo e torna a realidade
Esse sonho possível para a vida prática.
Ninguém quer coabitar com a infelicidade.”

“Mas pai, Wilson Martins é um vencedor nato.”
“Que assim seja então! Crítico sem adversário,
Nesse laboratório que é a vida, de rato
Faz o papel completo. É um peixe no aquário,
Respirando, soltando bolhas e nadando em círculos.
Nada de mais patético consigo ver
Ou imaginar. Pense bem, quais outros vínculos,
Reais e duradouros, ele pode ter?”

“Ora, papai, nem tanto ao céu nem tanto à terra.”
“Muito pelo contrário, se o cara é sucesso,
Que seja atirador, livre de toda a merda,
Sem nenhum compromisso. Só isso que eu peço.
Aliás, me expressei mal, seu único compromisso
Deve ser com aquilo que acredita ser
Verdade, nada mais que a verdade, só isso.
Será que é tão difícil você compreender?”

Um dos encarregados da limpeza, atento
A cada intervenção paterna, desembucha:
“Os senhores estão vendo meu desalento,
A idade chega e a gente senta na bruxa.
Varri, com esses olhos que a terra há de comer,
Dezenas de volumes do professor Wilson.
Estudei-os à exaustão, procurando entender
Sua metodologia, sua folha de serviços,

Suas virtudes, seus vícios, enfim, sua pessoa
E sua obra. Passei anos a fio na cola
De seus ensinamentos e não foi à toa,
É verdadeiramente um mestre e fez escola.
Isolar casos sempre causa confusão
E não quero fazer cavalo de batalha
Da nossa divergência, nem mudar de tom
Pra convencê-los que o preconceito atrapalha.

Não lhe tiro a razão quanto à avaliação
Que o Wilson fez de certos poetas do Brasil.
Mas ele não é só isso, na minha opinião.
O seu filho não precisa trocar o refil
De seus conhecimentos. Talvez só precise
Deixar pra lá a idéia de que o mestre Wilson
Sabe e resolve tudo, sem nenhum deslize,
Da poesia de cordel ao frenesi Sex Pistols.

Por experiência, sei muito bem que vassoura
Nova varre melhor; depois, vira uma bosta.
Mais perde eficiência quanto mais duradoura
Sua utilização. Porém a gente gosta
E se afeiçoa às coisas e aí há o perigo
Dos excessos, dos erros e da impostura.
Métodos ou vassouras, ouçam o que digo,
São ferramentas úteis, mas nenhuma dura

Para sempre, e nem mesmo aqueles que utilizam.
Mas há uma diferença fundamental: músculos
E cérebros treinados não só realizam
Bem melhor as tarefas, usando minúsculos
Esforços, mas também têm a capacidade
De inventar ferramentas bem mais eficazes.
Sejam elas vassouras ou métodos, cabe
Aos que usam mostrar do que são capazes.

Agora raciocinem comigo, sem pressa
E sem medo de ser feliz. Ao iniciar
Sua carreira, com que ferramenta começa
O Wilson? Com que método? Podem parar
Pra pensar, eu não tenho nada pra fazer.”
O jovem estudante, ocultando a mão peluda,
Parece iluminado: “Mestre do Varrer,
Limpar e Higienizar, sua sabedoria muda

O meu ponto de vista e faz uma limpeza
Completa no meu cérebro descabeçado.
E a higiene mental me faz ver com clareza
Esse burro metido à besta que, embalado
Pelo ego e a vaidade, eu fui, e que agora
Me faz sentir vergonha de mim e de tudo
Que cri como verdade de primeira hora.
Eu nunca imaginei sentir prazer no estudo –

Minha nossa senhora! O senhor me apresenta
Uma outra perspectiva, totalmente nova.
Sempre considerei estorvo a ferramenta
E que podia fazer uso ou não. Uma ova!
O método é a essência do estudo e da análise.
Ferramentas arcaicas levam a desvios,
Superficialidades, e foi desse cálice
Que bebi, me embriaguei, e fiquei a ver navios!”

O pai, mudo, parece não acreditar
No que seus olhos vêem e os ouvidos escutam.
“Mas quem é o senhor?”, pergunta sem pensar.
“Sou o Vílson da Vassoura, amigo dos que lutam
Para que a fé não seja loucura varrida
Embaixo do tapete de alguém sem topete.”
Mais do que estupefato, o pai, feliz da vida,
Volta-se para o filho: “Escutou, pivete?”

O rapaz quer agradecer, porém o caixa
Fala mais alto e cala sua boca no grito.
Ouvindo agora o MP3, tudo se encaixa. (5)
Consigo, dias depois, separar, sim, o mito
Do homem. E os dois, a bem da verdade, estão certos.
Pai e filho, criatura e criador, deus e o diabo,
As duas faces da moeda que move os espertos.
Ou um lance de dados abolirá o acaso?

(1) Antônio Cândido, um dos maiores críticos literários do Brasil.

(2) Mestre em Literatura da Universidade Federal do Paraná, tem se destacado pela isenção, perspicácia e sabedoria na análise da poesia contemporânea.

(3-4) Matsuó Bashô, pai do haicai, teve muitos discípulos, entre eles, Issa. Eu e Roberto Prado, assim que possamos, vamos publicar alguns de seus estupendos haicais no livro ISSA E SEUS AQUILOS.

(5) gravador/reprodutor/armazenador digital de dados e sons.


Capítulo 5

Wilson, poeta sentado é poeta em pé de guerra. (1)


Acho que você não está compreendendo.
Mas falo mesmo assim. A mim já não importa
Se me entendem, sacou? A idéia que estou vendo
Lá na frente, é nela que miro, na porta
Que vou abrir, quebrar em mais de mil pedaços
E você tem só que ir acompanhando, cada
Palavra é importante. Vá juntando os cacos
E subindo os degraus dessa esquálida escada.
Quando você cria, vai na direção de algo
Que não sabe o que é. Tomba e escorrega em falso,

Pisa na maionese, depois faz que vai
E vai mesmo ou nem isso e aquilo, sacou?
Você pega Jesus pra cristo ou Dalai
Pra lama e continua dando bola pro gol.
Foda-se o mundo todo, se você quer ir
Aonde ninguém foi, tem que querer viajar,
Tem que saber que lá pode não existir
Nem ser sua Eldorado e, mesmo assim, chegar,
Na terra do São Nunca, cafundó do Judas,
Onde o diabo doidão botou as ditas cujas.

O sentido é um detalhe, pesa quanto vale,
Um átimo de som pode ser suficiente
E te reconduzir de novo. Caso falhe
Mais essa tentativa de ir sempre em frente,
Você só abre a boca e deixa livre a fala.
Se nela nada se esconde, então, tudo é teu:
O sol, o sonho, o som, a luz, a gema, a água
E mais o que te fez vencer quando perdeu.
Sem trava no olho dá pra ver o céu da boca
E o que dela sai santo é coisa muito louca!

Estou dizendo agora o que nunca viu,
Ouviu? Você houve quando? Ontem havia e hoje há?
Perder tempo comigo é suicídio, sentiu?
Tua vida vai indo indo indo e você pra lá
E pra cá a escutar o que digo e não digo.
Isso não tem sentido. Mas vamos que vamos,
Até onde eu sabia, havia nenhum perigo,
Então vou começar para ver se começamos.
Ah! A idéia é esta e não dá pra saber
Se é tudo que nos resta, será que vai ser?

Bom, pelo menos, penso que estamos no rumo.
Mas o que você vai ser quando for alguém
Como eu? Será impossível? Melhor pegar prumo
O quanto antes, depois não fica sem também.
Poeta que tem de sobra, distribui de graça
O milagre de Deus; ao que falta, dá nada,
Não está nem aí. Para tua pouca desgraça,
É bobagem parar de disparar sem bala
Na agulha de um palheiro que perdeu o fio
Da meada bem no meio desta conversa, ouviu?

Poeta de ouvido estica o som, até lá não!
Lá não pode ser já, é bom ir devagar.
Essa lua tá que tá, olha só!, ê, mundão,
A luz do sol é que brinca de ser lunar.
Estrelas tem pra si e olhe lá uma caindo,
Ainda bem que do céu não passa disso, assa,
Cai no ponto final e o Caetano diz: “Que lindo!
Tudo é divino maravilhoso!” Trapaça
Da língua-mãe no cu dos outros é refresco.
Quero ver você cego quando me olhar vesgo!

Sentei, estou em pé de guerra? Tanto fez
Tanto faz, por enquanto, siga, engate a ré,
Mas se eu voltar atrás e ir em frente, talvez
Seja melhor você seguir o guia, não é?
Aonde vamos parar com essa conversa eu paro.
Não dá pra continuar assim, então, você
Trate de ir falando sozinho, meu caro,
Pra eu ouvir suas razões em silêncio e saber
Por que a chuva cai em pé, corre deitada,
Vai pro bueiro e depois eu puxo a descarga?

Ah! Nem me fale nada, mas aceite um chá,
Sem cerimônia. Vou te contar até dez
Pra você não perder a calma é pra já,
Não tenho tempo a mais para te dar a vez.
O tema do discurso? Bem, aí é demais
Pra mim. Volte ontem cedo, mas bem cedo mesmo,
Que te ensino a fazer renda para ganhar mais,
Muito mais, namorando só golpes de menos.
Um dia fui pra Maracangalha e não voltei
Nunca mais e ouvindo nunca mais eu fiquei.

Arranjei um corvo pra me coçar e o sarna
Não quis tirar o Poe dos meus sentidos, pode?
Claro que pode quem não pode se sacode,
Enrola a rima, faz de conta que é uma arma
Que o poeta tem nem vem que não tem pra ninguém.
Estamos entendidos? China é mais embaixo,
Mas está por cima da carne seca, neném!
Por outro lado, aqui, vamos fundo no tacho.
Queria o quê, melzinho na chupeta, amor?
Chupe o cu daquela abelha ali, por favor.

Poesia pode ser tudo e mais um pouco, ok!
Há quanto tempo estamos de papo pro ar?
Se não fosse a palavra, juro, já nem sei
O que seria de mim sem eu para falar
O que preciso ouvir. E, você, seria o quê?
Deus estava embriagado ao criar o ornitorrinco,
Você ficaria bem de. Não? Quanto quer valer?
Dinheiro não dá em cacho? Então, eu não brinco.
A fala diz, dê graças a Deus, Maomé,
E Alá meu bom Alá, repita se quiser.

Eu não estou aqui para fazer gracinhas,
Está pensando o quê? Eh, cara, cara a cara,
Não é bem assim, fale só as tuas, pois as minhas
Verdades em extinção são de uma espécie rara.
Tua interpretação de texto não me diz
O que eu te digo agora mesmo sem pensar.
Ah! Você é desse jeito mas é feliz.
Que dez! Será até bom revê-lo nunca mais.
Sendo assim, lá vou eu como não fui jamais!

(1) Verso do Solda, poeta, cartunista.
a
a
a
Capítulo 6

Nem tudo que reluz é Wilson.

Deus, do alto de suas máximas alturas, diz
À penca de anjos puxa-sacos a seus pés:
“Recebi informações de que ninguém o quis
E sendo assim, será lançado a pontapés
No limbo? Lavarei as mãos na sua inocência.
Tragam-me uma bacia com a marca Pilatos:
Desse modo aproveito para dar assunto
Aos críticos, aos biógrafos e engole-sapos
Como vocês. Adoro aparecer e muito mais
Ainda representar. Vamos com isso, rápido!
Cadê o maquiador ? Quero estar um tanto pálido.

Chamem Mozart e peçam a ele algo divino,
Como trilha da cena. Na iluminação, Buda
É hors-concours. Van Gogh fica com o pepino
De dar tintas ao cenário, ok? Ai, Deus me acuda!
Tenho que fazer tudo, qualquer dia descrio
O universo e nem pisco. Ô racinha inútil!
E parem de voar à minha volta, estão no cio?
Chamem a minha claque, ela me vai ser útil,
No momento do gran finale. Meu laptop!,
Preciso de umas frases de efeito do estoque.

Vou passar os e-mails com um vírus novo,
Que acabo de criar. Caos será o nome, aliás.
Vai ser bem divertido ver todo esse povo
Formatando suas máquinas e em Satanás
Jogando a culpa. Ih, ih, ih, eu sou diabólico!”
Sai e vai tomar banho, ansioso com a estréia.
Volta cheirando rosas, veloz como um bólido.
Espia pelas cortinas se é grande a platéia.
“A casa está lotada, senhor, acredite,
Mas já há um Movimento dos Sem Convite!”

“O quê? O MSC está à minhas portas?”
“Sim, meu Deus, pelo menos dez dúzias deles.”
“Carácoles! Estou certo por linhas tortas,
Mas esses caras torcem e distorcem. Eles
Conseguem me irritar muito e profundamente,
Quando vêm com a lupa analisar contratos
Que eu mesmo redigi. Duvidam... francamente...
De mim, como conseguem? Eu vou por em pratos
Limpos esse negócio. Mando-os pro inferno
E a manifestação acaba. Sou moderno,

E também sou aberto a uma nova idéia,
Mas sempre é bom lembrar que não mantenho rixa
Com o diabo, que pode utilizar a velha
Fórmula: negociar e acabar tudo em pizza!
Esses comunistinhas me incomodam tanto
Que, qualquer dia, coloco-os no paredão.
E aqui não é Big Brother não, meu caro santo;
Aqui é o Big Boss. Mando sim e não tem perdão.
Escreveu não leu, vai de castigo lá embaixo.
Eu criei o inferno e mal não há em nada que faço.

Ali fracos choram e os valentões se borram.
Vamos ao que interessa, chega de dar sopa
Ao azar! Você sabe como eles me adoram
Em cena e eu não dou nó em prego sem estopa.”
“Como, Senhor? Nó em prego? Não posso entender.”
“E nem vai, o papai não é pra qualquer um
Entender. Pela audácia, você vai perder
As asas que ganhou um dia em Cafarnaum. (1)
Assim aprenderá que minha DEMOcracia
É tão relativa quanto o Einstein e sua teoria.

Mas, para você não ficar perambulando
Pelas nuvens, de gás vou recheá-lo todinho,
Igual a um balão de festa. E como sempre ando
Com agulhas no bolso, já viu, né, fofinho?”
Amarra-o com barbante, volta dois mil anos
No tempo e o entrega a Jesus menino.
Depois ergue-se aos céus, retornando aos seus planos.
Mas Jesus não. Jesus, desde bem pequenino,
Adora passarinhos e, em seu coração,
Guarda um milagre de asas para o seu balão!

Longe dali, seu pai, pisando em nuvens, entra
No Grande Salão Celestial e pede água,
Sabonete, toalhas e um creme de placenta.
Mozart, Buda e Van Gogh, metendo os pés na tábua,
Tomam conta da cena em som, em luz, em cor!
O público, extasiado diante da beleza,
Aplaude, grita, chora e exalta o Criador,
Que, teatral, finalmente, põe cartas na mesa:
“Lavo as mãos na inocência do Wilson Martins!"
Diz Deus sob sua coroa de anjos e querubins.

Percebendo o efeito de sua frase, lava
As suas mãos, lentamente, como se quisesse
Ouvir todo o silêncio que se fez do nada.
“Quem leu toda sua obra que tenha a finesse
De subir aqui no palco e fazer uso da toalha."
Diz estendendo as mãos em direção ao público.
Um silêncio ensurdecedor sobre a sala
Cai. Porém, Deus, o todo poderoso e único,
Senhor do Céu, da Terra, criador do universo,
Supremo superior, não dá frente sem verso.

“Eu sempre soube, sei e saberei. Sabiam?”
Olhou-os de cima, sem esperar resposta.
“Ninguém, nem mesmo o réu e aqueles que o seguiam!
Só tinha esse motivo, ao negar minha porta
Ao Wilson, para que ascendesse ao céu eterno.
Mas quando São Miguel, consolador das almas
Do purgatório, não o quis, pensei no inferno,
Que ia ser minha vida, por perder tais causas.
Satanás, que podia ser minha salvação,
Desliga o telefone após sonoro não!

Fico num mato sem cachorro de dar dó.
E vocês estavam lá para me ajudar?
Nessas horas bem sei, conto comigo e só.
Jogue-o no limbo a pontapés, ouvi falar
No dia de sua chegada, tão inesperada.
É fácil falar faça, fazer é difícil,
Até para mim, Deus. Depois que a macacada
Se organizou em sindicatos, meu ofício
Divino perde charme e força, dia e noite.
Falta pouco pra eu fazer uso do açoite.

Mas por hora, basta. Chega de choramingo!
O réu Wilson já tem decretada a sentença.
Lavei as mãos, mas volto atrás: vai para o limbo,
Porém, sem pontapés. Virgílio, em recompensa, (2)
Poderá novamente ir do inferno ao céu,
Como já fez um dia, lado a lado com Dante.
Quando ele aqui chegar, faremos o escarcéu
Do ano, com abalos e um tsunami gigante!
O Wilson, eu não perderei jamais de vista,
Ele terá mil anos pra ser um artista!"


(1) Cafarnaum, aldeia onde Jesus pregou, conquistou apóstolos e realizou muitos milagres.

(2) Virgílio escreveu a Eneida, obra que também narra uma descida ao mundo dos mortos. Dante, no início da Divina Comédia, anuncia Virgílio como seu guia para a grande travessia: limbo, inferno, purgatório e céu.



Capítulo 7

Tinha um Wilson no meio do caminho


O poeta é um mendigo de si mesmo, porra!
Um cara que não entra pela porta, entende?
Sua alma é prisioneira, vive na masmorra
De misérias reais, sonhando que o que sente
É a vida em carne e osso. Haja sofrimento!
Um em milhões que escrevem é poeta de lei,
O resto? Bem... Alguns merecem linchamento;
Outros, é bom deixá-los em paz com sua grei.
O rosário que rezam é só um faz-de-conta,
Terapia ocupacional, monta desmonta.

Bem, doutor, eu sou poeta. Tenho amor aos livros.
Onde tem poesia, pulo em cima, me interessa.
Sou tarado por arte, de mortos ou vivos.
Pesquiso à exaustão, se acho poesia, estou nessa!
Fotografia, pintura, teatro, arquitetura,
Cinema, prosa, verso, não enjeito a obra,
Que tem poesia, tem alma, e amor à cultura.
Conhecimento tenho demais, até sobra,
Mas não paro. Estudo o dia inteiro, sem pausa.
Matei meu ego, porque era um mala sem alça.

Motivos, ele mesmo me deu, de montão.
O senhor veja bem. Minha vida não é flor
Que se cheire. Sou poeta, tenho um coração
Malhado a ferro frio e a alma de estivador.
Carrego um peso imenso no lombo e agüento
A carga sem um pio e não me queixo nunca.
O que é de mais valia agora não me lembro,
Mas meu ego era um prego enterrado na nuca.
Imagine o senhor, tudo que ele queria
Era a coluna que o Wilson escrevia.

Mas cada livro novo que eu lançava, nada!
Nem uma linha, vírgula ou reticências.
O silêncio do Wilson era a patacoada
Do século, um insulto às letras e às ciências.
Dá para imaginar, doutor, o que eu sofri?
O barulho dia e noite na minha cabeça?
Nem sei mais quantas vezes eu já não morri!
O senhor faça as contas. Vamos que aconteça
Do seu ego crescer demais, ao infinito,
Quebrar sua voz ao meio e querer ganhar no grito.

O senhor, dividido, continua o mesmo?
Em terra de cego quem tem um olho é rei
E quem tem dois, é o quê? Faz vista grossa a esmo,
Finge que decifrar a esfinge é de lei?
Bom, o senhor que sabe de si; eu, de mim.
Mas agora eu já estou melhorzinho, doutor.
Depois que a cara cai, começamos do fim,
Em cacos se faz o quebra-cabeças da dor.
Quando a voz interior cessou, vi meu tamanho
E balancei. Me olhei no espelho e vi um estranho.

No lugar do genial poeta ali estava eu,
Um alienígena, doutor, um anjo caído.
Me belisquei pra ver se o sonho era meu
E acordei para ser o que eu não tinha sido.
Li e reli tudo que escrevi diversas vezes.
Me deu nojo, doutor, e vomitei as tripas.
Bílis vazou-me à boca durante esses meses
De avaliações, de análises e de críticas.
Juntei todos os blocos, guardanapos, papéis,
Pacotes, e de dor urrei em mil decibéis.

Taquei fogo que foi bonito de se ver!
Daí entrei em total parafuso, apaguei.
Vaguei por esta Terra de ninguém, sem vez,
Sem voz, sem mais nem menos. E pelo que sei,
Depois, vim para cá. Fiquei a seus cuidados.
Há um vácuo ainda dentro de mim que preciso
Preencher para poder recuperar os dados.
O senhor, melhor que ninguém, sabe o prejuízo
Que esse vazio provoca em meu equilíbrio
Emocional: por isso me mantém cativo.

Sabe, doutor, às vezes, vêm imagens, lapsos
De memória. Eu vejo e não sei o que é.
Tem um homem caído, há sangue em seus braços,
O cérebro está exposto e sem sapato um pé.
As visões se repetem quase todo dia
E quando forço para lembrar fico meio zonzo.
A cabeça me dói e sinto uma agonia
como a que sente um lutador na hora do gongo.
Daí vem o alívio e tudo ganha uma clareza
Imensa; então, escrevo o que me dá na telha.

O mais incrível é a cadência de meu canto.
As sílabas parecem dançar de alegria
E as rimas soam maravilhadas de espanto.
A loucura, doutor, é uma alegoria
Da alma, um simulacro pra testar o ser.
Estar no manicômio judiciário mata,
Se não houver vontade férrea de viver
E o sonho de se ver sem o nó que nos ata.
Sabe, doutor, pendurado no pau de arara,
Descobri que a verdade está na nossa cara.

Toda aquela porradaria passou em branco,
Porque meu corpo estava lá, não minha mente.
Enquanto me batiam, eu me vi num barranco
E me precipitei abaixo, simplesmente.
Eu batia os meus braços e voava, doutor,
Espetacularmente. Era como se eu fosse
Um anjo que aprendeu a voar com um condor.
Uma nuvem toda feita de algodão doce
Tocou meus lábios com seu feitiço de açúcar
E caí nesse abismo que hoje ainda me assusta.

Este ou lugar nenhum é a mesmíssima coisa.
Diga-me, doutor, isto aqui não é o limbo?
Já que ninguém caga nem desocupa a moita
Me dá impressão que aqui nunca se joga limpo.
É trapaça sobre trapaça e muito medo.
O condicionamento nasce do terror,
Da ameaça, do castigo que sempre vem cedo
Demais nesse insuportável circo de horror.
O tempo é ilusão, doutor. Ele não passa,
Nós passamos, como uma nuvem de fumaça.
a
O limbo é aqui, tenho certeza absoluta.
Não matei minha mãe a soco ou a encoxei
No tanque, pra virar cobaia de disputa
Intelectual de médicos foras-da-lei.
Novecentos e noventa anos ou um dia
Que diferença faz ao tempo que me falta?
Minha pena é apenas ir à drogaria,
Engolir essa pílula e esperar a alta,
Que não vem nem virá, até que a morte me esqueça
E eu, vivo, deixe que o milagre me aconteça.

Enquanto isso, doutor, vou dar c’os burros n’água,
Tirar o cavalo da chuva, pôr carroça
Na frente dos bois e colocar um fim na mágoa.
Se há vida há esperança a caminho da roça,
Então melhores dias virão ou já vão tarde.
Mais do que nunca, quem espera sempre alcança.
Faça por mim como se fosse eu e Deus te pague!
Está escrito: conforme a música é que se dança
E é bom irmos em frente que atrás vem gente
De olho maior que a barriga e podem vir quente

Que eu já estou chutando até cachorro morto
E cada um sabe o que lhe convém e não vai
Querer ficar querendo que macacos mordam
A banana que não temos nem pra remédio.
Tudo pode acontecer a direito ou a torto,
Já que estou no mato é pra me perder sem pai
Nem mãe e ficar pra titio onde os rios corram
Do mar como quem foge da cruz e do assédio
Sexual do Wilson Martins que entrou pela porta
Dos fundos no momento que já não importa.




Capítulo 8

Pelo amor de Deus, Wilson.

Não é um mezanino do inferno nem porta
A outros planos do Céu. O limbo guarda as almas
De crianças sem batismo, pois Jesus se importa
E defende essa causa e também mantém salvas
As de todos aqueles que morreram antes
Dele morrer na cruz, mas foram bons e justos.
“Aqui não sereis nada. Andarão distantes
De vós significados e sons. Altos custos
E sacrifícios pagareis até que cumprais a pena
De mil anos que, a mim, pareceu bem pequena.

Caminhai em silêncio e em sua direção,
Quando, enfim, vossa mente o encontrar, tereis,
Então, cumprido parte de vossa missão.
Despi-vos da ambição! Sabei que nada sabeis
E podereis cruzar a ponte que separa
A vossa voz do cerne do conhecimento.
Ide em paz, Wilson. Deus vos deu essência rara
Como objetivo claro. Tal alistamento
Seja motivação e alegria à vossa alma.
Andai em linha reta, em frente e sem pausa."

Wilson abriu a boca e nenhum som se ouviu.
“Caminhai em silêncio e para o silêncio,
Se quereis ser artista, no prazo de mil.
A divina mensagem passei por extenso.
Começai já a jornada. Tendes longo trecho
Até o ponto final, onde teus pensamentos
Deixarão de existir. Não tenho outro desfecho
Para nossa conversa. Só arrependimentos
Sinceros bastarão, mas segui vosso rumo,
Pois eu, pela entrada do inferno, agora, sumo!”

Virgílio, por sentença divina ordenado,
Lança-se à travessia que pela vez segunda (1)
Terá que realizar, mas não acompanhado.
Wilson vê à sua frente a estrada que se afunda
E dá o primeiro passo em direção ao nada.
Só, Deus que a tudo assiste, ajoelha-se a rezar
E pede em oração, a Si Mesmo enviada,
Que eles possam ao fim da jornada chegar.
“Vão comigo!” E, alçando vôo, Deus deu-se aos céus
De outros cuidados, outros incontáveis réus.

Wilson caminha, grita e nenhum som se escuta.
Tenta uma, duas, três, mil vezes até que, exausto,
Desiste. Gostaria de ter à mão cicuta
Ou o veneno que tão bem preparou Fausto, (2)
Mas está só, sem som, sem sol, sem sombra, sem...
Suas pernas vão levá-lo aonde nunca esteve.
Um lugar muito além da imaginação vem
Ao seu encontro a cada passo. Sente sede
E a sede que sente não é essa que a garganta
Seca; mas, sim, aquela que água não adianta.

Sente no peito as chamas do fogo do inferno
E a angústia de mil e uma noites em claro.
Mas não há nada ali, só o vazio sempiterno
De sua solidão muda, surda, sem olfato,
E sem tato. Seus olhos vêem, porém, enxergam
Apenas a longa estrada, perdida entre a treva
E a luz. A tudo mais, seus mesmos olhos cegam,
Para que o caminhar seja de real entrega,
Nesse lapso de tempo e espaço por Deus criado
E mantido, para que o réu cumpra o seu fado.

Ao final do terceiro dia, Wilson cumpriu
Metade de sua pena. Nos quinhentos anos,
Que passou caminhando sem soltar um pio,
Sofreu todas as dores que estavam nos planos
Divinos, destinados à sua redenção.
Mas, enfim, silenciou sua mente e pode ouvir,
Pela primeira vez, a voz do coração.
O que ouviu não pode entender, mas sentir.
E, sentindo, ganhou sentido o que ouviu:
“O que são quinhentos anos pra quem vai a mil?”

Sorriu, enquanto os sons se repetiam no espaço.
“São rimas”, disse. “Hei de usá-las com rigor,
Sob risco de, em não o fazendo, perder laço
Com o ritmo que ao verso dá alma e vigor.”
Ouvindo tudo, Deus, poeta maior, aplaude
O pequeno progresso: “Nasce um novo artista.
Devolvo-lhe os sentidos, pra que não lhe falte
Nada nesses quinhentos anos pela pista.
Andará bem melhor e aprenderá com quantos
Sofrimentos faço um poeta de mil encantos.”

“Eu vejo, escuto, sinto. O que está acontecendo?
A estrada não é a mesma e nem mesmo sou eu?
Não pode ser, meus olhos mentem. Estou vendo
Leminski e Paulo Francis, um defensor meu, (3)
Vestindo togas gregas e a rir como amigos?
Mas eles não me vêem! Como é possível isso?
Posso ouvi-los tão bem. Eu vou lhes dar ouvidos.”
“O Wilson tinha lá suas razões, mas nem Cristo
Agradou a todos, Francis. Creio que ele sofreu
Muito para manter-se fiel ao que escreveu.

Acho que ele teria que viver mais quinhentos
Anos pra começar a entender os meus poemas
E outros tantos pro Catatau. Meus sentimentos (4)
Em relação ao Wilson, não foram problemas
Insolúveis. Apenas, lhe deixei bem claro,
Que a poesia que eu fazia não faz a alma vazia.”
“Que homenagem ao nosso Augusto, hein, polaco?!”(5)
“Esse merece o céu em que está para sempre.
Jamais sua lira soou desafinadamente.”

“Mas, Leminski, voltando ao falecido assunto,
O Wilson me foi útil, durante um bom tempo.
Trocamos elogios. Porém, se pouco é muito,
Algumas vezes, lembro, com constrangimento,
Dos meus rompantes quixotescos no jornal.”
“Ah, Francis, alguns erros todos cometemos.
Gostaria que ele estivesse neste local,
Agora, pra lhe darmos o que não pudemos
Dar-lhe em vida: Perdão, carinho e compreensão!”
“E alguns chutes na bunda, meu querido irmão!”

Rindo os dois, a pauladas, matam a saudade,
O assunto, e dão no pé, sem deixar nenhum rastro.
Wilson sente-se muito só, pois a verdade
Que acabara de ouvir, tirou-lhe todo o lastro,
Deixando-o atordoado e bastante confuso.
Uma alcatéia de remorsos uiva, morde
E, mostrando suas garras, como um louco fuso,
Põe-se a desfiar a trama que o passado acolhe.
E Wilson chora lágrimas ininterruptas,
Que, chegando ao chão, se tornam flores múltiplas.

(1) Na Divina Comédia, Virgílio é o guia de Dante
na travessia do inferno ao céu.

(2) No livro Fausto, de Goethe, o protagonista
tenta se suicidar com o veneno que prepara em
uma taça.

(3) Paulo Leminski, genial poeta curitibano que
polemizou com Wilson Martins, e Paulo Francis,
radical pensador, jornalista internacional e escritor
polêmico, um conservador revolucionário.


(4) Catatau é a obra mais polêmica de Paulo Leminski.
Está por merecer um estudo menos superficial
do que esses que andam por aí.


(5) Leminski homenageou Augusto “parodiando” o seu
magistral verso: “Fazia frio, e o frio que fazia/ não
era esse que a carne nos conforta/...









Capítulo 9

O Mulher na vida do Wilson.

“O cara diz que é poeta, Dr. Oliveira,
Mas nem parece homem com aqueles cabelos.”
“Me traz esse meliante que lhe arranco os pêlos,
Depois vai ser noivinha até virar caveira.
Nesta delegacia, mando eu e mais ninguém!
Disseram que ele leva a alcunha de O Mulher?
“Certíssimo, doutor! Quando o senhor quiser
Começar o interrogatório, tem também
Material apreendido que pode ajudá-lo.”
“Então, me traga tudo aqui já, ô, cavalo!

O agente sai e volta derrubando livros
E desabando sobre a mesa onde está o chefe.
“Puta que pariu! Merda! Tira mequetrefe!
Suma, antes que te ponha entre os inativos!”
“Desculpe-me, doutor! Sou um desajeitado.
Mas aqui estão as provas apreendidas ontem.”
“Livros!? Eu quero a arma. Vão lá e desmontem
A casa do filho da puta efeminado!”
“Mas doutor Oliveira, os livros são as provas
Que temos no momento. Não existem novas.”

“Não diga, pangaré! Então, qual é a jogada?”
“Os livros pertenciam ao mestre assassinado
E estavam em poder do rapaz acusado,
Quando fui atender no Largo uma chamada.
O caso era uma briga entre duas gostosonas,
E põe gostosa nisso! Quase pulo em cima!
Mas não interferi, porque não havia clima.
Pedi um martini doce e algumas azeitonas.
Comecei a papá-las e, bebericando,
Assisti à melhor cena que já vi neste ano.

“Vai dar uma de Dalton Trevisan agora?
Poupe-me, mini-pônei. Direto ao assunto!”
“Quando as duas se acalmaram, eu me acalmei junto.
Foi então que o acusado fez um bota-fora
De livros muito bons. Um deles caiu-me aos pés.
Ao abri-lo, que surpresa! Trazia em seu bojo
Do mestre a assinatura que, em letras de estofo,
Reclama a propriedade. Meu olhar, de viés,
Insuspeito, mirou o alvo e, num salto esperto,
Dominei-o, em segundos, pelo flanco aberto.

A ruiva que há pouco gania que nem cadela,
Voa no meu pescocinho e leva um pescoção.
Algemo o tal Mulher e chamo o camburão,
Enquanto defenestro o namorado dela.
Pensei que ia ser linchado, mas chegou a tropa
E foi enfileirando os bebuns, no cacete.
Um senhor, bem vestido, rouba o capacete
De um guarda e, ao tentar sair de fino, topa
Com o Marreta, aquele negrão do terceiro
DPM, que lhe dá um pontapé no traseiro.”

“Ui!, esse deve ter doído para caralho.”
“O chute pegou saco e cu. Foi bem no meio
Das pernas. Levantou o cara do chão. Sei o
Quanto isso dói. Pro cara sentar, deu trabalho.
Mas prendemos a turma toda no quartel
E colocamos, um a um, sob investigação.
Vão ver o sol quadrado lá na detenção.
Nem a diarista gorda, que fez um escarcéu
Daqueles, escapou das garras do Marreta,
Que atordoou a velha com uma chapoleta.

Foi pipoqueiro, guardador-de-carro, não
Sobrou um pra contar a história lá no Largo.”
“Belo trabalho, meu alazão! Café amargo
E uns dias na cela dão juízo e correção.
Agora, meu jumento preferido, diga
O que eu quero ouvir. Provas novas não há, certo?
O que temos de oásis em meio ao deserto
De idéias que esse departamento cultiva?
Desembucha, meu baio, não tenho o dia todo.
Solta a galope o rol de culpas desse povo.

“Encontramos, na bolsa da ruiva, maconha,
Um revólver com três cápsulas deflagradas,
E chaves. Como as portas não estão arrombadas,
Podem ter sido usadas pela sem-vergonha
Ou pelo assassino. Testes de baliza já
Estão em andamento, bem como os das chaves.
Burocracia e incompetência são entraves
Enormes. Agora só nos resta esperar.
Na casa do senhor de aspecto grave e sério
Foi que demos de cara c’um grande mistério.”

“Ah, foi lá que vocês encontraram a grana?”
“Só verdinhas de cem. O pastor tem bom gosto.”
“O quê, o cara é pastor? Na Universal tem posto?”
“É um peixão pelo jeito. Mora em rua bacana,
Puta mansão, carrões, coleções de bebidas:
Vinhos, uísques, tequilas, runs, vodkas, absintos
E cachaças das boas, já bem envelhecidas
Nos barris de carvalho, em vários recintos.
A caixa de Blue Label está guardadinha
Para o senhor beber, na próxima festinha!”

“Meu puríssimo-sangue da Arábia merece
Promoção! Que tal ser o meu braço direito?”
“O esquerdo é que lhe falta. Não fosse o defeito,
O doutor já teria chegado à Marrakesh
A nado. Superintendente da polícia é pouco,
Pra quem tem um Q.I. elevado como o seu.”
“Ainda bem que tem quem reconheça que meu
Enorme potencial aqui é tratado a soco,
Pontapé e safanão. Relinche, que eu faço gosto,
De ouvir estas verdades, assim, rosto a rosto.”

“Ah! Chefinho, o senhor já entregou a bufunfa
À corregedoria? Cem mil dólares: Deus!
O que eu não daria pra tê-los entre os dedos meus.”
“Isso não lhe compete, comigo só triunfa
Quem não se mete à besta e fica bem calado.
E pra você saber, as notas eram xerox,
Só cópias vagabundas. Tirei-as dos potes
E enviei ao Secretário, Dr. Paulo Furtado.”
“Falsas? Aquelas notas? Eu não acredito!”
“Pois pode acreditar. Se quiser, eu repito.

Mas chega desse assunto. O que mais conseguiu?”
“Bem... Tem algumas coisas, mas muito intrigantes.
Muito mesmo. A diarista já trabalhou antes
Com o Wilson e foi demitida em abril.
E foi bem problemática a demissão
Por justa causa. Temos que investigar fundo.
Parece que tem culpa no cartório, pois junto
Com ela estava uma corrente de ouro tão
Valiosa que há queixa de roubo. E quem fez?”
“O Wilson Martins, certo, meu bom bolonhês?” (1)

“Muito bem, perspicácia é arma da polícia.
Mais comprometedor é que ela tinha cópias
De chaves em sua bolsa que parecem próprias
De uma mansão e não de um mocó de caliça.
Aí tem, viu, doutor!? A velha tem varizes
Até nos braços, pode um troço desses? Putz!
As rugas são tão fundas que não sei se há cútis
Sobre aquelas pelancas em forma de raízes.
O pipoqueiro é trinta e cinco anos mais moço,
Mas da fruta da velha chupa até o caroço!”

“O que quer insinuar? Que esses dois são amantes?”
“Não só são bons amantes, como também andam
Vendendo otras cositas que não são pipocas.”
“Não vai querer dizer que os dois são traficantes?”
“Sim. E de cocaína pura. O carrinho
De pipoca era só fachada para o tráfico.
Tudo muito bem feito. Tipo jogo rápido.
O pó era mocado dentro de um pacotinho
De sal. Os clientes tinham senha pra comprar
E pediam um salzinho extra para levar.”

“Mas como descobriu a ligação dos dois?”
“A bela garçonete entregou a jogada.
O dono do bar era sócio da parada.
Disse que o pó corria solto logo depois
Que baixavam as portas, e que só dá uns pegas,
Não é viciada. Vou te contar, viu, doutor!?
O troço está de um jeito que eu não vejo por
Onde começar. Mas pode deixar c’o degas
Aqui, que vai dar tudo certo no final.
Se a gostosa cagar pra trás, vai levar pau.

Já transcrevi seu depoimento, se ela assina
Ou não é outro negócio. Tenho minhas dúvidas,
Pois choveu advogado a cântaros e as únicas
Testemunhas foram instruídas na surdina.
Ô raça fia da mãe! Parecem urubus
Vindo atrás de carniça, porra! Nunca vi
Coisa igual, me dá nojo. Tomem nos seu cus,
Filhos da puta! Pusilâmines! Daqui
Não sai ninguém até que me contem tudinho.
Tim-tim por tim-tim, muito bem explicadinho!

- Certíssimo, meu Apaloosa. Teu tropel (2)
Escreverá em ouro meu nome na história.
Até já posso ver as manchetes, a glória
Da capa na Tribuna, meu limite é o céu! (3)
Entrevistas, sessões de foto, imagine só:
Delegado Oliveira, o nosso Sherlok Holmes!,
Tomando toda a capa, sem ter outros nomes
Para ofuscar meu brilho. Cocoricocó!
Do espalhafato da galinha nasce a fama
Do ovo, e uma medalha meu peito reclama!

- Amado chefe, já o vejo lá nas alturas
E todos a seus pés, implorando atenção,
A chuva de convites, comemoração,
O carro aberto escoltado por cem viaturas!
Mas pra que isso se torne real, vamos à luta.
O guardador de carros era o segurança
Do point, está sacando? Então a coisa avança.
Onde estão os bacanas? Quem será o batuta
Que comanda esses pés-de-chinelo da porra?
Café de primeira não se faz com a borra!

Sabe, doutor, de toda essa canalha aí,
Se salva pouca coisa, mas vamos em frente.
- Chame O Mulher agora mesmo, tenho em mente
Que esse é o nosso homem. Vai, suma daqui!
Enquanto eu interrogo; você, meu Bretão, (4 )
Cavalgue em direção às provas que preciso.
Esprema todos eles. Leve-os lá pro piso
Inferior. Faça suco de ossos e um sopão
Com os miúdos. A imprensa quer sempre notícia
Fresca, então, prepare a bomba mais propícia.

O que se segue todos sabem: o pau come
Solto pelo porão, corredores e salas
Da delegacia, onde arquivos, papéis, malas
E homens tentam chegar finalmente a um nome.
Depoimentos são lidos, relidos, refeitos,
Analisados, comparados, comentados,
Interpretados, investigados, jogados
Pra lá e pra cá, ficando ainda sujeitos
A novas aventuras nesse labirinto
De idéias e teses, que enlouquecem o recinto.

O governador quer resultados pra já;
O superitendente da polícia, pra ontem.
A imprensa? Bem, fabrica histórias de monte.
Maracujá ou comer cu de marajá
Tanto faz, quanto mais fictício o estropício
Melhor. Quem afinal quer saber da verdade?
A ficção é que vale, não a realidade.
Quem se importa se colocam no hospício
O Mulher, aleijado por uma seção
De tortura total num pau-de-arara, ou não?

Quem se importa se fazem de mulher um homem
E lhe quebram as pernas para que confesse
O que fez e o que não? Quem rezaria uma prece
A quem chora de dor porque dez o comem?
Quem se incomodaria de sair de seu lar
E cobrar real justiça a um louco cabeludo,
Que atende pela alcunha de O Mulher, no mundo?
Não estou nem aí mas posso perguntar?
Quem cobraria a conta? Quem? Quem pagaria,
Conveniência e correção na mesma via?

Quem releria o capítulo sete de novo
Pra sentir o que é um Manicômio Judiciário?
Quem sentenciaria tudo que julgou inválido
E começaria de novo a contar com o ovo
No cu da galinha agora? Qual de nós, poetas,
Enforcaria seu canto pra dar dar vez e voz
A um zumbi entorpecido, vigiado por nós
Na camisa de força e mil gritos de alerta?
Quem, vendo-o babar, de olhos vazios no horizonte,
O chamaria de irmão com prazer de Anacreonte? (5 )

Mas deixemos, leitores, de lado o capítulo
Com suas cento e quarenta linhas mal rimadas,
Mil seiscentos e oitenta sílabas contadas,
E um Wilson reluzindo bem no meio do título.
Digamos que foi apenas mero desabafo
De alguém que foi lançado aos porões de um inferno
Em vida e quer fugir desse castigo eterno,
Com a poesia que tem debaixo do seu braço.
Afinal, um O Mulher a mais, um O Mulher
A menos, só faz diferença pra quem quer.

Você quer? Não? Então deixe c’o beque aqui.
Que eu vou fundo na história e, doa a quem doer,
Resolvo esse mistério, libertando, de uma vez
Por todas, inocentes e réus em poder
Dessa justiça cega, surda, muda e podre.
Estou bêbado? Louco? Claro. É bem óbvio.
Mas não assinei meu atestado de óbito
E quando ouço a palavra cultura, ao coldre,
Não levo a mão e, sim, ao coração, meu músculo
Maior, motor do espírito, juiz sempre justo!

(1, 2, 4) – Raças de cavalo
(3) – Jornal mais popular de Curitiba, focado em crimes e futebol.
(5) – Poeta, máximo representante da lírica jônica. Cantou os prazeres do convívio, do vinho e do amor.





Capítulo 10

Existe crime perfeito, Wilson?


“A morte é o fim da linha. Descansou, babau!
De lá ninguém voltou para contar história.
Você nem nasceu e já começa a ir embora.
Vida é curso preparatório, no final,
Você sempre cai duro, algodão nas narinas,
Mãos cruzadas, rosário sobre elas, as flores
A cobrir teu cadáver, a guerra de odores
Àquele cheirão enjoado de mil naftalinas.
E cem velas acesas anunciando o inferno
Que vai ser tua entrada triunfal no fogo eterno.

Que coisa mais patética, você, em silêncio,
E tem vozes dando uivos de dor e tristeza,
Enquanto outros nem fazem a gentileza
De homenageá-lo em breves assôos ao lenço.
Seis mãos vão entregá-lo frio, em domicílio,
Ao coveiro insensível que, em ágeis pazadas,
Vai mandá-lo de vez às bocas esfomeadas
Dos vermes, que ao banquete irão dar início.
A horrenda comilança, de apenas um prato,
Só chegará ao fim, após o último naco.

Pronto, aí está você, um monte de ossos brancos
Secando até virar pó. Só pó. Pó de ser...
Pode ser ou não, eis a questão do viver.
Foi bom andar então aos trancos e barrancos?
Agora não tem volta. É pra sempre. Fim.
Acabou-se a vaidade de querer ser mais
Do que os outros. Adeus, orgulho! Adeus, geniais
Tiradas de espírito, ficamos assim!
Entre nós o silêncio sempre disse tudo
E falou alto enquanto estive só e mudo.

Você, morto; eu, vingado. Foram trinta anos
De humilhações, tristezas, engolindo sapos.
Todo dia acordava, ouvindo os teus papos
Intermináveis, chatos, e refazia os planos
De acabar com tua vida na primeira chance.
Me dediquei de corpo e alma a você.
Eu não casei, não tive filhos, pra poder
Ler, estudar, pensar e escrever com o alcance
Dos grandes Mestres. Fui um idiota completo,
Imaginando ser seu autor predileto.

Você riu dos meus poemas, taxou-os de medianos,
Deu-me livros de Affonso e Bruno para ler
E disse-me: “Aqui, gênios que têm o que dizer
E o dizem com real perfeição. Não há enganos!”
Eu li de cabo a rabo a obra desses dois,
Com coração faminto de estrelas e céus
Nunca antes navegados e só encontrei véus
Obnubilando sóis, que se apagaram depois.
Minha alma entristeceu sem remédio ou cura,
Mas a luz do dia deu rumo à minha loucura.

Criei ódio da poesia e nunca mais li de novo.
Cinco anos se passaram e um simples bom-dia
Me fazia gaguejar, mas eu bem o servia
E jamais me escapou um resmungo ou muxoxo.
Planejei em detalhes seu assassinato,
Pus cópias de suas chaves na bolsa da ruiva,
Sua aluna favorita, e na da dona Augusta,
Pus também sua corrente, que eu havia furtado,
Meses antes. Seus livros, os de cabeceira,
Enviei-os ao rapaz de enorme cabeleira.

Tudo perfeito, professor. Os que mantinham
Contato c’o senhor, foram incriminados.
E, a essa altura, devem estar ocupados
Negando acusações que nunca mais terminam.
Meu depoimento foi preciso como um corte
A laser. Cada sílaba soou verdadeira,
Triste e emocionada. Nenhuma besteira,
Nenhum deslize, eu não precisei da sorte.
E nem tive problemas morais por mentir,
Inverter, inventar, encobrir ou fingir.

Mas a sorte me sorriu, colocando os três
No mesmo bar e sendo presos na mesma hora.
Seus dólares estão bem guardados agora,
Em um esconderijo. Guardei, mês a mês,
Mais alguns. Não terei problemas com dinheiro.
A aposentadoria está bem encaminhada
E a vida é bela quando tem uma bolada
À sua espera e o tempo livre o dia inteiro.
Felicidade é vitória espiritual,
Quem vence colhe os louros; quem não, leva pau!

Voltei a fazer versos como antigamente.
Seu epitáfio foi de matar, obra prima.
Ganhou tanto elogio, que minha auto-estima
Nunca esteve tão bem. Soou admiravelmente:
“Amou muitos livros, ainda está entre os vivos!”
Bati em sua máquina e sujei com sangue
Seu o papel, como foi provado no exame.
Daí montei a cena - seu corpo entre os livros,
Mão sobre o coração, os olhos bem abertos,
Um pé descalço - que enganou os mais espertos.

O seu cofre arrombado virou coqueluche.
Se tivesse toda essa grana que divulgam,
Viveria como um rei, mas tudo bem. Julgam
Só pelas aparências. Quanto mais se esmiúce
A investigação, pior para eles, coitadinhos.
Estão mais por fora que umbigo de vedete.
É o que dá se meter com quem não se conhece.
Sou um gênio da raça, mexendo os pauzinhos!
E o tempo foi passando, passando, passando,
De novos crimes os jornais se alimentando.

Quer saber no que deu o tal do julgamento?
O Mulher foi pro Manicômio Judiciário,
A ruiva pegou três anos, o milionário
Pastor saiu limpo, sem nenhum envolvimento.
Augusta, sua diarista, e mais toda a quadrilha,
Vão passar oito longos anos no xadrez.
E eu, seu fiel mordomo, o turista da vez,
Viajarei mundo afora, de uma maravilha
À nova maravilha, escandindo meus versos,
Criando paralelamente outros universos.”

A Wilson foi permitido ouvir cada palavra
E a cada palavra que ouvia, sua alma inteira
Sacudia de terror, desespero e à beira
De um colapso nervoso, que já o sufocava,
Clamou aos céus: “Vingança! Eu quero vingança!”
Deus, muito entristecido, põe-se a meditar:
“Dei-lhe caminho, luz, e ei-lo assim a gritar,
Como um demônio louco quebrando a aliança.”
E entre as flores do céu pensou com seus botões:
“Errei, não será um poeta em mil nem em milhões!”



Fim


Antonio Thadeu Wojciechowski
a

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