polacodabarreirinha

Poesia, música, gracinhas e traquinagens

quinta-feira, maio 29, 2008

Polaco da Barreirinha e Maringas, no Beto Batata.

Bola Perdida



“Os jovens têm todos os defeitos dos mais velhos e mais dois:

falta de experiência e de sabedoria.”


Ditado do Azeribaijão



Meus benevolentíssimos leitores, não faz muito tempo o grande pacifista Mahatma Ghandi, ao estender seu magnânimo e beatífico olhar para os estragos que os ingleses provocavam na economia e na vida da Índia, saiu com esta : “Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como o oceano. Só porque existem algumas gotas sujas nele, não quer dizer que ele esteja totalmente sujo.” Concordo em gênero, número e grau.


- Eu também, eu também. Fala engordando o olhar sobre o que escrevo, o Geraldo, o ser que senta à minha direita e que tem entre suas predileções diárias assoar-se, rosnar, coçar-se, flatular e espiar sobre o meu ombro para planejar futuros plágios. Se eu o descrevesse fisicamente, certo, vocês não acreditariam no que estavam vendo, então, vamos deixá-lo como está e seguir em frente, meus turísticos leitores. Comecei com o Azerbaijão, encontro o caminho da Índia e chego ao Brasil. Ao desembarcar, o que vejo? Uma passeata de jovens exibindo cartazes com palavras de ordem: “Queimem livros de poetas curitibanos”, “Quem lê Leminski é traficante”, “Poesia é droga, denuncie”, “Morte aos OSS”, “Marcos Prado é merda pura”, “O Polaco da Barreirinha é pior que bosta” , “Forca para o Ivan Justen” , “Procura-se Koproski, França, Leprevost, vivos ou mortos!” , entre outras que prefiro nem citar, tamanha desfaçatez. Mas isso não tem importância.

A HIDROFOBIA BABILÔNICA ou a ERUPÇÃO DA BABA.


- Mas como assim não tem importância? Quem você pensa que é, ô merda mole de fiofó de scargot? Quantas vezes vou ter que repetir que você é pago para escrever sobre futebol, hein, escriba do satanás? O office-old tenta desestabilizar minha quase canina paciência taoísta. Eu apenas olho-o, vejo-o e, acreditem, enxergo apenas uma espinha enorme e mais nada, à minha esquerda. É impressionante, né, meus esclarecidíssimos leitores, mas vocês hão de concordar comigo, tem certas pessoas que, portando um defeito, só ele aparece. É como se todo o corpo deixasse de existir para dar lugar somente ao que mais lhes incomoda, àquilo que lhes é um câncer na alma. Sim, na alma. No caso do Ribamar, nosso idoso office-boy, as suas espinhas, que em suas freqüentes erupções já soterraram as mais vesuvianas Pompéias. Mas não é isso o que eu queria lhes dizer.
]
PELA BOLA OITO


Certa feita, estávamos eu e Nelson Rodrigues no Estádio Mário Filho, antigo Maracanã, quando fomos apresentados a uma grã-fina da alta sociedade carioca. Ela, com seu nariz de cadáver, vinha pela vez primeira assistir a um jogo de futebol. O peculiar, meus curiosíssimos leitores, é que ela estava completamente transtornada pela impaciência e aos faniquitos exigia: “Me apresentem a Bola! Quero conhecê-la? Quem é a Bola?” O Nelson, como era do seu feitio, olhou-a tão profunda e longamente, que ela instintivamente abotoou o último botão da blusa e, lépida, afastou-se sem se despedir. O senhor que a trouxe até nós riu-se fartamente e isso fez com que sua barriga de ginecologista chegasse ao oitavo mês. Grávido de vaidade, ele nos confidenciou: “Essa aí já enterrou três maridos e tem mais quatro desquites nas costas.Tem quatro babás só para cuidar dos filhos pequenos, os adolescentes estudam na Suíça, é um fenômeno!” E balançando a pança ainda mais enfático: Que mulher! Não perde uma festa!! Nunca trocou uma fralda!!! Terminado o jogo, eu, Nelson e o exuberante balofo pegamos um táxi e fomos em direção a uma boate no Leblon. No caminho ele dizia: -“Ainda bem que a família está com os dias contados! Os jovens vão enterrar de vez a família!” Riu-se e desceu meia dúzia de quadras depois, nos deixando boquiabertos e estupefatos. Após um pequeno silêncio constrangedor, Nelson soltou o verbo: -“Um dias desses eu estava na PUC e havia uma pequena aglomeração e, ao centro, um jovem estudante perguntava: O que é um lar? E ele mesmo respondia enquanto mascava um chicletes talvez imaginário: O que nós chamamos de lar são cadeiras, mesas, camas, paredes, pratos. Fez uma pausa e concluiu com exultante crueldade: Eu não tenho não tenho que respeitar nem móveis, nem louças, nem toalhas, nem paredes. E sabe de uma coisa, Dalton?, foi aplaudidíssimo e carregado em triunfo. Mas isso não me surpreende tanto, escute essa. Outro dia um colega na redação d’O Globo, me dizia espavorido: Minha filha sabe mais do que eu! Perguntei-lhe: Que idade tem tua filha? Resposta: Onze anos. E já sabia mais do que ele. Procurando um isqueiro , o meu amigo disse mais: Só vendo como minha filha chama a mim de chato, à mãe de chata. Não me respeita, a menina. Minha filha é fogo! No fundo, no fundo, estava quase orgulhoso das desfeitas da menina. E Nelson respirou fundo nesse momento, como se algo o preocupasse infinitamente. E , com os olhos vazando luz, finalizou: Esse conceito “Razão da Idade” existe em todos os idiomas. Em toda parte, não se julga o jovem. A ninguém mais ocorre que o jovem pode ser um santo, um herói, um justo, mas também um canalha, um pusilâmine, um pulha assumido. Nelson, em sua sagrada indignação, só voltou a falar quando o garçom se acercou da nossa mesa. Mas não era isso o que eu ia lhes dizer, meus prolixíssimos leitores.

ENTREVISTA COM O VAMPIRO

O Trevisan esteve lá em casa, aproximadamente à meia noite, e, como um vampiro sedento e faminto, apropriou-se da garrafa de licor de ovos e da tigela de broinhas de fubá mimoso. Soltando farelos pela boca, sob o bigodinho que tenta esconder o dentinho de ouro, desembuchou:
- Passei no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma e peguei a mensagem mediúnica do Machado de Assis. Tome, eu já li. Saiu e não disse nem tchau. Começo a pensar com meus botões de futebol de mesa e, bruscamente, sou interrompido:

- Já ia me esquecendo...Soube do Torcedor?

- Sei, a partir de amanhã já recebe visitas.

- Vamos lá amanhã?

- É possível.
Ia completar, mas a cabeça do Trevisan do jeito que veio foi e desapareceu na fresta da porta, me deixando a sós com o envelope na mão. Trêmulas, minhas mãos rasgam o papel e retiram a folha, de onde salta aos olhos a magnífica caligrafia de Machado:

Dalton, Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento. Assim não dá pra ser feliz.


Felicidades. Ass.: Machado de Assis

AGORA É TARDELLI.

Claro é isso! O Machado está certo. Eis a raiz, eis a verdade inexorável. Mas isso não tem importância. O que vale é ponto corrido e o campeonato brasileiro desembestou. Domingo passado, o Tardelli provou, ao vivo e em cores, para todo Brasil que não sabe pra que é que serve o apito. O fato é que ele é um juiz sem juízo e, na sua sandice, passou a mão cheia de dedos no Coritiba. Um descalabro, um achaque, um roubo. Assim podemos definir a sua atuação nos três pênaltis que deixou de marcar para os coxas. Dizem os mais mansos que o empate foi bom, mas quem entende de futebol viu outra coisa. O Polaco da Barreirinha me telefonou para contar que encontrou, na festa de nove anos do Beto Batata, o Maringas, indignado e soltando fogo pelas ventas: "Perdoando demasiadamente aos que cometem faltas, fazemos uma injustiça contra os que não as cometem." E quase saltando os olhos, completou: "É o medo o mais ignorante, o mais injusto e cruel dos conselheiros. Tenho certeza absoluta que o Tardelli é um cagão, se borrou todo de medo dos sampaulinos." O Polaco ainda fez a gentileza de me mandar a foto do insólito encontro, que aproveitei para ilustrar a crônica de hoje. Mas isso não tem importância. O Atlético também somou um ponto, mas não está jogando absolutamente nada. O novo técnico, prestigiadíssimo, fala em mudanças radicais, pois não gostou nadica do que viu. O mesmo discurso passa pela garganta do Bonamigo, que amargou mais um péssimo resultado em casa. Talvez o Paraná queira mesmo a lanterna porque não vê uma luz no fim do túnel.

O Roberto Prado, na sua enorme generosidade, me ligou na segunda de madrugada, aflito:

- Dalton, o futebol do Paraná não tem representação. Os nossos políticos, dirigentes e representantes são um bando de puxa-sacos que cada vez aumentam mais. Ninguém faz porra nenhuma. Ou você acha que só os remorsos suprem a justiça?

- Bem, Beco, penso que...O desgracido desligou e não disse nem boa noite. Fico a sós com minha insônia e penso em vocês, meus queridos leitores. Vocês que torcem pelo Coritiba, Atlético, Paraná. Vocês que entregam parte de seus suados salários em troca de um ingresso e torcem e vibram e se emocionam. Vocês querem, no mínimo, que os jogadores façam a mesma doação, que ponham o coração no bico da chuteira e honrem a camisa que um dia pertenceu a um Krueger, Zé Roberto, Evair, Sicupira, Assis, Régis, Saulo. Pode até perder, mas que até o último segundo o time esteja apertando a goela do adversário e bafejando na nuca.

SEM O ALEX, A RAPOSA MIA.

Vem aí, o Cruzeiro, a pedra da vez no sapato do Coritiba. Mas sem aquele que já foi nosso maior craque e deles também, o Alex. A torcida Coxa não quer nem saber, com Carlinhos Paraíba no time jogando com Michael ao seu lado, não tem pra ninguém. E time por time sou mais o verdão. O Couto lotado é sempre um jogador a mais e o time está jogando bem, na maior parte do tempo. Para vencer, basta entrar ligado, totalmente focado no jogo, que a raposa entrega os pontos. O Atlético vai a São Paulo pegar o Palmeiras, que vai jogar desfalcado. Mas não significa muita coisa, pois o Luxemburgo é um estrategista de mão cheia e o Atlético não mete medo em mais ninguém. O Roberto Fernandes diz que vai mudar isso, mas só teve pouco mais de uma semana para trabalhar. O Paraná...bem...é melhor deixar pra lá, por enquanto, para não atrapalhar. Mas não brinquem com o Ceará, porque o estádio pode cair de vez. Como diz meu amigo Batista de Pilar, paranista doente: agora é ganhar ou ganhar.
Mas isso não tem importância.

NÃO SE MATE E NEM CORTE O SEU PESCOÇO: DEUS ESTÁ CONOSCO.

O que eu queria mesmo lhes dizer, meus cordialíssimos leitores, é que o Brasil ainda vai ser tudo aquilo que queremos. Se hoje vemos bandos de desonestos, dúzias de falsários, pencas de ladrões, vagões de corruptos, carretas de indecentes, contâineres de traficantes e contrabandistas aos montes, vamos pensar que entre eles existem jovens, adultos e velhos. A idade não importa nem para o bem nem para o mal. O que importa mesmo é a consciência de que juntos formamos uma nação e ela é o que nós somos. Há lugar para todos, poetas, pensadores, religiosos, artistas, trabalhadores, enfim, os que aprenderam que viver é somar experiências, acumular ensinamentos e caminhar ao encontro da verdade, da justiça e da solidariedade. A ignorância é a raiz de todo mal, meus sapientíssimos leitores.

Poupem-me todos aqueles que ainda não são o que deveriam ser.

Dalton Machado Rodrigues

quarta-feira, maio 28, 2008


contra-mãe


mãe boba

mãe peluda

mãe de obra

mãe única

mãe mecânica

mãe de vaca

mãe cheia

mãe furada

mães calejadas

metem a mãe na massa


cobaia, édson, rodrigo e thadeu




madeeeiraaa!


tudo que tem neste deserto, meu filho,

são seqüelas da racionalidade

pena que o partido verde não amadureceu

antes que a desolação tombasse

a nossos pés despidos


a água pura corrente cristalina

a araucária e sua celestial copa ramificada

a gralha azul levando o destino no bico


isso, meu filho, hoje, me faz chorar,

porque tudo que tinha neste deserto

e hoje não tem

tudo isso, meu filho, um dia será seu


cobaia, édson e thadeu




desejo irresistível de viver


arrulha a primeira pomba porca

ao romper do estupro da madrugada

o franco atirador disse:

nunca mais merda

nesta bosta de calçada


cobaia, édson e thadeu




marchinha lenta



meia dúzia de passinhos pra trás

três piscadelas para o par errado

noves fora rebolados abundantes

uma arroba de silicone bambolê

um movimento oblíquo

para meia volta total


apontei as falanges para o céu

e fui feliz

caí de boca no alambique

no sábado de carnaval


cobaia, édson, rodrigo e thadeu



dedos cruzados


se você quer ser mal humorada

cafajéstica, cretina, falsa

dissumulada, pernóstica, reacionária, infeliz

de uma figa que eu fiz

pra me livrar de você

se você quer ser, pode ser

levanto teu astral, estrela decadente

não leve a mal eu te querer tão bem


édson, edilson & thadeu




sentimento da vida


eu já descobri

lágrima de colibri

é a mais sentida

no sentido da vida


só você, meu amor

não chore por favor

porque se você chorar

viro lágrima derretida


édson & thadeu


segunda-feira, maio 26, 2008


animálias 2


joaninha no campo

dando pinta

alguém lhe passou sarampo


thadeu w



vida de cachorro

basta um uivar

pra começar o esporro


thadeu w



o caranguejo é diferente

andando para trás

ele segue em frente


thadeu w



outono dos quintais

caem folhas secas

onde voavam pardais



thadeu w

sábado, maio 24, 2008


foi, é, será

sexta passou e eu nem vi

dizem que é sábado esse domingo de segunda

a semana faz de conta que é um mês

este dia 24 não era pra estar aqui

ô, decadazinha mais vagabunda!

desde o ano passado que 2009 é o da vez

onde essa relatividade vai nos levar?

será que ainda consigo me encontrar?

o tempo se parece com uma estrada

todo fim é um bom começo também

emendar de terça à quinta não é nada

quero ver é na sexta a loucura que vai ser

pra eu chegar a tempo neste sábado que vem

e, de uma vez por todas, viver bem

aconteça o que acontecer!


Thadeu W

sexta-feira, maio 23, 2008


Bola Perdida

“Jimi Hendrix , no festival de Monterrey, fez uma exibição tão divina e maravilhosamente perfeita que se tivéssemos que separar músico e instrumento
seria o mesmo que operar xifópagos.”


Meus irrequietos leitores, não se preocupem, isto aqui ainda não virou coluna musical, mas, vocês sabem, ela é e sempre será uma janela aberta para a vida, a alegria e a arte. E, para os brasileiros e mais uma boa parte do mundo, o maior artista de todos os tempos ainda é Pelé. Então para ficar tudo absolutamente claro entre nós, podemos, se pensarmos com inteligência, chegar juntos à mesma conclusão, isto é, assim como não podemos separar a guitarra de Hendrix, também não podemos separar a bola de Pelé. Esses dois gênios, que uso como exemplo, seriam corpo e alma como nós? Desconfio que não. Intuo que são mais. Muito mais. Digamos que, além do corpo e da alma, há nestes predestinados uma extensão dos corpos (guitarra e bola), assim como também de suas almas (música e futebol). Mas isso não tem importância.

- Se não tem importância, então, por que você fala sobre isso, ameba artrítica? Ouço à minha direita e, sem olhar, adivinho o Geraldo, num esgar, a esticar o olho em direção ao que escrevo para pilhar idéias, enquanto recolhe restos de baba elástica com o lenço engomado e duro de tanto ranho seco.

- O quê! Não me diga que esse coágulo de sangue tuberculoso já começou a punhetar? Com o canto do olho, observo à minha esquerda, um semi-rosto em meio a uma espinha enorme, voluptuosa, prestes a entrar em erupção e me protejo, abrindo o guarda-chuva. Me sentindo seguro, observo Ribamar, o matusalênico office-boy da redação, olhos de boi assustado, espremendo, empurrando, suando, no limite de suas forças, até que, num momento apoteótico, a hecatombe se realiza e me proporciona uma visão do que pode ter sido um dia o big-bang. É o sebo líquido que explode cedendo à pressão dos dedos e se espalha por toda a redação, meus cepticíssimos leitores. Mas, não se enganem, não é só o sebo de uma espinha, não, não é uma espinhazinha qualquer, como são as espinhas da classe média, por favor, acreditem. É, antes, uma excreção ancestral, milenar, um vazamento remoto, de bem antes do homem tirar as patas dianteiras do chão. Um fenômeno tão desgraçadamente nojento que a natureza, por bem e por asco, já havia extinto e sepultado há pelo menos cem séculos. Mas isso não tem importância,
meus importantíssimos leitores.

Os dois infelizes caem na gargalhada e, de braços dados, saem para fumar, mas não sem antes conferir os vestígios de sebo sobre esta folha alva em que escrevo. Dou-lhes as costas e, como quem reza, início a oração que estava prestes a lhes dizer, quando fui interrompido. O assunto de hoje, meus honestíssimos leitores, o que realmente quero lhes dizer é algo que me assombra há muito tempo. É de conhecimento de todos vocês o célebre ditado que diz que a justiça é cega. Pode até ser, mas só no restante do mundo. No Brasil, ela é cega surda, muda e tetraplégica.

- Toda regra tem exceção, ô besta apocalíptica. Geraldo volta, senta-se à minha direta e solta a última baforada na minha cara, rindo.

- Por que não fecha esse bebedouro de lavagem, hein, cachaço capadão? Zurra, apagando o cigarro sobre minhas anotações, o office-old.

Apesar da indelicadeza gratuita dos dois delinqüentes senis, não perco o fio da meada e retomo. Dia desses, pensando cá com os meus botões de futebol de mesa, deduzi que não há nada neste mundo, quiçá além dele, mais corrupto e ganancioso do que grande parte da classe política brasileira. Não, não estou sendo inocente, meus precipitadíssimos leitores. Lógico que essa classe, além de se servir no lauto banquete das mutretas e da impunidade, serve o grupo mandante, que, servido, caga caviar e limpa o rabo com notas de cem, enquanto sorri para as colunas sociais e para nós que ficamos sem nenhum. São péssimos exemplos. Gente que veio ao mundo só para pilhar, piratas que roubam mais do que poderiam gastar se vivessem mil anos.
Me dá nojo. Mas isso não tem importância.

Sei que vocês devem estar se perguntando: “Mas o que isso tem a ver com o Hendrix, com o Pelé, com a música, com o futebol?”

Tudo, meus argutíssimos leitores. E explico: sem arte, o mundo é apenas matéria. Um amontoado de tijolos, postes, pedras, fios, antenas, papéis, ferros, rodas, carnes e ossos. Reduzida à simples matéria, a humanidade se brutaliza. É muito pior do que qualquer animal selvagem, pois esse só mata na medida exata de suas necessidades. O homem ganancioso não, esse é capaz de colocar uma amante, coberta de jóias raras num transatlântico de luxo e deixar quinhentos operários na sua fábrica à míngua. Não tem limites a ignorância e a cegueira provocadas pela ambição. Mas não era exatamente isso que eu queria lhes dizer. A verdade é que o campeonato brasileiro vai que é um upa para alguns times e nem tanto para outros. O fim de semana para os clubes paranaenses, na verdade, foi o fim do mundo, um Apocalipse Now sem a direção de um Francis Ford Coppola e sem a interpretação do genial Marlon Brando.

O Paraná levou uma tunda tão formidável que caiu de quatro nas areias do Castelão. Tupo por culpa do campo. Realmente é uma vergonha, mas isso é série B, meus paraníssimos leitores. Ainda bem que, na terça, o Paraná conseguiu um empate em Marília e não voltou com as mãos completamente vazias. Jogou bem, dominou, mas no futebol nem sempre o melhor vence. Vamos torcer que essa melhora do padrão de jogo não seja apenas uma ameaça e comece realmente a se recuperar e somar pontos.

O Atlético, apesar de ter conquistado um ponto com o empate, jogou bem 28 minutos e novamente se perdeu. Os reservas e juvenis do São Paulo foram pra cima e só não ganharam o jogo, porque o rubronegro está com sorte. Muita sorte, meus atleticaníssimos leitores, tanta sorte que o Nei foi mandado embora. Francamente, o time estava sem padrão de jogo, sem esquema tático, sem liderança dentro de campo, enfim, um amontoado de jogadores, correndo atrás da bola e, quando a tinham, não sabiam o que fazer com ela. Mas isso não tem importância.

A vergonha maior do nosso futebol ficou mesmo por conta do Coritiba, ou melhor,
de uma pequena parte de sua torcida, pois apanharam quatro vezes: no campo, em frente à sede da torcida do Figueirense, na delegacia e na mídia. Uma vergonha em rede nacional, vista, revista e que permitiu aos cronistas de todo país tripudiarem sobre as gloriosas cores alviverdes. Uma lástima só comparável ao primeiro tempo do jogo. Uma modorra só. Eu havia dito semana passada que se o coxa jogasse 70% do que jogou contra o Palmeiras ia ser um massacre, mas não jogou nem 20% e sentou que rosqueou. Resultado: 2x1 para o Figueira. Após o intervalo, o time que entrou em campo era outro. O Dorival Jr. deve ter dado uma mijada daquelas. O coxa pressionou, dominou, mas sem alma, sem coração, sem força, sem técnica e sem estratégia. A verdade, meu coritibaníssimos leitores, é que o coxa, sem seus principais jogadores, é um time extremamente comum. De bom, apenas Guaru e Hugo. Michael, sem Carlinhos Paraíba para tabelar, não teve o mesmo brilho e Alê foi uma caricatura do jogo anterior.

Preocupante, mas, com a volta dos titulares, o time tem tudo para vencer o São Paulo e convencer. Principalmente se a dupla Pedro Ken e Michael jogar tudo que sabe e a defesa não der o mole que deu ao time barriga verde. A lamentar, a suspensão do Carlinhos Paraíba. Mas uma coisa é certa o São Paulo, depois da derrota e eliminação da Libertadores, vai vir babando e soltando fogo pelas ventas pra cima.
Vai ser aquela guerra.

O Atlético igualmente tem um osso duro pela frente, o seu homônimo de Minas.
Mas também tem tudo para vencer. O novo técnico deve dar a injeção de ânimo que falta para que os seus jogadores, finalmente, formem um time de futebol.

O Paraná, agora, tem dois jogos em casa, Bragantino e Ceará. Estão aí duas grandes oportunidades,pois com duas vitórias convincentes o time e a torcida voltarão a sorrir. E quem sabe até o técnico, que não anda com cara de bonamigo. Perdoem-me o trocadilho, mas também sou humano, meus pacientíssimos leitores.

O que não posso deixar de lhes dizer é que o meu tio, o Torcedor, o único cara no mundo que não perde uma partida de futebol e não torce para time nenhum, a não ser pelo futebol-arte, piorou e pirou. Entrou em depressão profunda, ao saber, na UTI, através de uma enfermeira fofoqueira, os resultados dos jogos do domingo passado. Segundo relatos dos médicos que o atenderam, o Torcedor por pouco, muito pouco, pouco mesmo, não peidou para o diabo. O Trevisan apareceu lá em casa à noitinha e me contou em detalhes:

- Dalton, teu tio só não virou merda seca de micróbio porque foi atendido na hora. Foi um infarto fulminante, daqueles que normalmente o cara cai duro, seco, arreganhado e sem volta.

- Putz!

- O Torcedor vai ter que ficar 30 dias em repouso absoluto, visitas só na semana que vem.

- Bom, pelo menos, ele vai descansar na marra. Vai ser bom.

- É, proibiram televisão, rádio e jornal. É soro e sono. E por falar nisso, o Machado acordou do seu sono eterno e deixou uma mensagem para você no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma, posso ler?

- Claro, claro, mas leia em voz alta, pois estou mais expectativo que mãe viúva quando vê a filha virgem partindo para a lua de mel.

- Escute, então: “Dalton, catei outra pérola para você :
Daqui pra frente, o fogo é irmão da dinamite!
Faça bom uso.
Machado de Assis.”

- Profundo, hein, Trevisan?

- Só. Saiu, pensativo, sorumbático e macambúzio e não disse nem tchau. Ligo a televisão e tenho que desligá-la imediatamente, para atender ao telefone,
me dêem uma licencinha:

- Alô... fala...

- Ô, Dalton, é o Roberto Prado.

- Tudo bem, Beco? O que você manda, cara?

- Eu não tenho bem certeza, Dalton, sobre o que imbecilizou mais as duas últimas gerações brasileiras, se foi a ditadura militar ou a programação dos canais de televisão.

- Acho que foi...O Beco desligou sem esperar resposta. É sempre assim, ele lança uma dúvida, descobre a resposta enquanto faz a pergunta e desliga. Vá entender um cara desses.Mas isso não tem importância.


Sirvo-me de uma generosa dose de licor de ovos e um belo naco de broinha de fubá mimoso e, sentado na varanda, olhando para as estrelas, lembro da primeira vez que me encontrei com Nelson Rodrigues. Ele falava em voz alta e gesticulava como se estivesse num teatro, falando grego: “Até poucos anos atrás, o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a se saber idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os melhores pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. Houve, então, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.” Deixou-se cair na cadeira e ficou olhando pela janela com os olhos perdidos, como eu estou olhando para as estrelas agora. O calor desses três últimos dias me alegrou, gosto destes veranicos de maio. O anoitecer é sempre agradável, tranqüilo e dá uma pausa reconfortante ao meu espírito. É isso aí, meus paupérrimos leitores, enquanto na televisão, rádio e jornais os escândalos são manchetes e espoucam em todos os cantos do país, nós, os idiotas, vamos pagando a conta. Mas domingo tem jogo e um grito de gol está atravessado em nossa garganta. Como bem disse o Maringas, quem sabe, um dia, este grito seja o rastilho que vai levar o fogo à pólvora. Ou, como eu completo, e se transforme em uma extensão de nossas almas, como o futebol e a música para o Pelé e o Hendrix. Então, além de comemorar um gol, iremos festejar também o pleno exercício de nossa cidadania, com honestidade,
bravura, verdade e arte.

Poupem-me enquanto esse dia não vem.

Dalton Machado Rodrigues

quinta-feira, maio 22, 2008


relendo roberto prado

nem tudo que escrevo eu sei
certas coisas parece que não fui eu
outras vou descobrir depois

dizer que ir embora é um prazer
não significa ter para onde ir

roberto prado


Célio Martins, por ele mesmo.



Nasci no oco do mundo. Trago dentro de mim uma mata verde. Meu pai se chama Antônio e minha mãe Luíza. Os dois são analfabetos. Eu estudei o primário numa escolinha de barro. Carregava comigo a floresta nos cabelos, alvoradas selvagens, arvoredo nos olhos. Fiz faculdade de Comunicação Social na UEL, em Londrina, e Master em Jornalismo pela Universidade de Navarra, Espanha. Comecei a escrever há mais ou menos uns 30 anos. Trabalhei como jornalista em vários jornais e tevês: Folha de Londrina, Correio do Estado (Campo Grande-MS), TV Iguaçu, TV Campo Grande. Escrevi sobre literatura em algumas revistas e jornais. Nos anos 80 escrevia poemas e contos para crianças na Folhinha, da Folha de São Paulo, e no Estadinho. Na UEL, convivi com muita gente legal, como Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Nelson Sato e muitos outros. Perdi pelos caminhos muitos dos escritos da adolescência e da juventude. Tenho uns livros esquecidos numa caixa aqui em casa, uma dúzia mais ou menos. Nunca publiquei nenhum deles. Hoje trabalho na Gazeta do Povo. E continuo escrevendo e lendo.

Uma história sem começo nem fim.


Não morra antes de tudo acabar


Nunca morra antes do amanhecer

A noite longa longe

Há muito que sonhar

O sol ainda há de nascer


Não morra hoje não

O dia feito pra viver

O que ficou nas lembranças

Caminhos não foram em vão


Não, não morra antes do fim da história

Setembro não chegou

As chuvas estão voltando

Folhas verdes nos campos de outrora


Nunca morra antes de ver o pôr do sol

As montanhas lá para sempre

Ondas jamais deixarão de se formar

Distantes, seus olhos serão o mar


Não morra antes de tudo acabar

Célio Martins

http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/certaspalavras/


depressão

você anda cabisbaixo

nervoso

aflito

deixou de lado o contrabaixo

levou um pé na bunda

e achou gostoso

tentou ganhar no grito

e perdeu pela segunda

ou terceira vez

não lembro mais

é tanta merda

que você anda fazendo

que já não sei quais

estão te moendo

e provocando a queda

eu já te disse

cada um com seus problemas

mas pode me passar alguns

que eu ajudo a carregar

o resto é tolice

pra que transformar em emblemas

os lugares comuns?

dá pra aliviar

tirar o pé do acelerador

botar a cabeça em ordem

e parar de ver a vida pelo retrovisor

remorsos?

são teus próprios dentes que te mordem

não caiu a ficha?

você está pagando irreais impostos

e cumprindo uma pena fictícia

dá um tempo, viu

tanta garota boa

bonita, gentil,

e você aponta tua proa

para uma puta velha

que pegou teu amor

teu sentimento mais profundo

e transformou a história mais bela

num conto de horror

e pornografia

meu caro amigo

a grande verdade deste mundo

ainda é o amor

guarde e ele perece

dê e ele se multiplica

uma mulher como aquela ninguém merece

e nem vem com essa

de sexo total

o amor tem outra fala

e o resto é conversa

que quando sai da sala

vai pro pau


thadeu w

quarta-feira, maio 21, 2008

PÁGINAS IMORTAIS



na captura

falei

até a letra

ficar

grande

fiz de tudo

até figura

já me entende

ou ainda falta

mulher nua?

roberto prado

Imperdível. Quem não for, que vá catar coquinho.


Na verdade, acho que nunca deixei de ser professor,
adoro crianças e adolescentes.
Gosto de conversar com elas. Este projeto foi muito legal e agradeço
à Renata Melle por ter me dado a chance de participar.


Thadeu, aqui vai um poema feito por uma criança da biblioteca Casa Kozak, que visitou a sua casa. Ela foi lida pelo autor no primeiro encontro do Quarto Crescente.

Renata Melle


Caso de amor

Fui à casa de um poeta,

Poeta da nossa terra,

Grande amigo do Leminski,

Na estrofe ele não erra.


No violão pura magia:

Seus poemas viram canção,

Para as crianças traz alegria,

Faz versos com o coração.


O nome dele é Thadeu,

É um grande escritor

E com seus livros

Tem explícito caso de amor!


Jefferson Sprada

Biblioteca Casa Kozak