polacodabarreirinha

Poesia, música, gracinhas e traquinagens

quinta-feira, julho 31, 2008


CAROS AMIGOS:

Por motivo de viagem - este blog ficará inativo até segunda-feira dia 03/08/2008.

quarta-feira, julho 30, 2008



Vida de Poeta


Até onde vou, todo mundo sabe,

Vou ver se ainda estou na esquina

Antes que essa poesia louca acabe

E eu já não saiba a que ela se destina.


O coração no peito rufa, bate,

Escoiceia e vai ao encontro da rima,

Como um cão que pra própria cauda late,

E dá voltas, e, em círculos, gira.


Talvez esse lirismo que me invade

E me leva a escrever linha após linha

Seja só ego e o cúmulo da vaidade.


Pode ser também apenas a idade,

Lindezas que o tempo na gente inspira

Depois de tanta espera na fila!


Antonio Thadeu Wojciechowski






Poema ao Infinito

Dos meus olhos partem visões, é hora
E a vida, na válvula de sua vulva,
Flutua no cadafalso da dúvida
E não me dá a poesia de agora.

Sempre e sempre essa pressa ininterrupta
E o céu insiste em ficar do lado de fora.
Deixei para trás a aura da aurora
E lavei a alma na água da chuva,

Mas, Caim, caí mais uma vez na lama
E, cortando a língua de babel,
Compreendi a razão de quem ama.

Nenhuma palavra sob este véu,
A sabedoria da pele é prece
Ao infinito amor que o mundo merece!


Antonio Thadeu Wojciechowski





Universo em corpo e alma.


Sempre e sempre, minha poesia,

A eternidade não passa de um dia.

Quando o sol afinal perder seu posto

Não haverá nem sombra do meu rosto.


A este céu, que queima meus miolos,

Devo o refúgio para meus olhos,

Mas se, por acaso, olho pra dentro,

Já não há mais a questão do tempo,


Pois o tempo, em pessoa, alma do espaço,

Vem comigo, imóvel, passo a passo,

Em cada palavra ou mínimo gesto.


Assim me vejo inteiro neste verso,

E neste verso, brilho de um único astro,

Vejo a vida expandindo o universo!



Thadeu W






terça-feira, julho 29, 2008



senhorinha não-me-toque


“Era tentação, nem menos nem mais”

Edgard Allan Poe


sempre fui inocente, puro e bom
porco chauvinista é o caralho
chegar em você deu o maior trabalho
o teu drama era a cor do batom

tive sempre a melhor das intenções
uma mina assim merece um malho
dama é carta do meu baralho
eu sou como eu sou: um em milhões

não sei a hora de dizer palavrões
minha língua nem a mama segura
viu, ana marta gouveia de bulhões?

diante de um anjo de tal candura
como posso manter minh’alma pura?
fico a pensar com meus culhões



thadeu wojciechowski, edílson del grossi,
marcos prado e roberto prado





buraco branco


espaço tempo é uma cama elástica

a luz desvia da matéria e segue

matéria-prima para as artes plásticas

vamos imaginar que o olho não cegue

e todas as formas ganhem corpo

átomos vivos se expandindo a torto

e a direito, até o descanso final

repouso absoluto, a síntese fatal!



Thadeu W






a primeira cicatriz
a gente nunca esquece


ponha um band-aid no buraco da bala
e pare de se fazer de vítima
perdeu uma perna use a outra

e vê se te manca


justiça de cego é olho por olho
e de banguela dente por dente

nem tudo que vi acreditei

nem todo crime depende da lei

procure a felicidade perdida num tiro certo
e prove que você é um alvo esperto


(thadeu, marcos prado, cobaia, edson e edilson)




rabo de galo, napalm na mão!


acordei pelado num quarto de hotel

depois de misturar todas

no mesmo coquetel

o espelho de batom dizia tchau


entrei no elevador cheio de sangue

vi tudo revirado no hall

pior quando saí pela rua

sol sol sol



Sérgio Viralobos, Thadeu W, Walmor Góes

e Rodrigo Barros





Um dos meus mais belos poemas. Minha filha, Paola,
formanda de Direito,
faz 22 anos e prepara uma festa
com todos os amigos.

Essa eu não perco de jeito nenhum.


Thadeu W





Todo mundo lá, homenageando esse monstro da guitarra.
Um dos maiores gênios musicais nascidos à sombra das araucárias.

segunda-feira, julho 28, 2008



Hitler na Mídia.

Hitler pegava criancinhas no colo
Hitler falava na igualdade da democracia
Hitler sorria para mamães e papais


Hitler sonhou um dia ser prefeito de Curitiba
Porque aqui tem gente
que se acha uma raça superior



Thadeu W





Biranights no Rio


Depois de 28 anos de casados
Descobri que ela não me amava
Como eu a amava mais que à vida
Já não conseguia conviver nem comigo mesmo
Por isso embarquei para o Rio de Janeiro
Por acaso, faltava uma semana para o carnaval

Hoje moro a 100 m de Copacabana
Toda minha tristeza morreu na praia


Thadeu W e Édson de Vulcanis



Remanescentes da folia


Agora que já sou quase sessentão

Em plena idade do lobo espumante

Gelado, seco, suave ou frisante

Borbulho de amor por você


Thadeu e Edson






Bombeando, atarantado

Um grande amor não é fácil de achar
Passei a vida a procurar

Acabei me perdendo também

Chegando ao fim eu fui além

Tontas disseram que me amavam

Que lá pelas tantas saí do sério

No corpo a corpo, elas se fartaram

O amor é o único mistério


Ó meu amor, que eu nunca vi na vida,

Infarto miocárdico foi festa despedida!



Thadeu e Magoo





Narciso de Bunda Suja


Nasceu velho e sem pudor nenhum

Exibicionista que nunca se enxergou

Amigo público nº 1 de si mesmo

Mas morreu sem rir da última piada, triste,

Com todo o peso da irresponsabilidade


Thadeu, Édson, Capetão




sexta-feira, julho 25, 2008

Gertrudes, a enfermeira do Torcedor.


Bola Perdida

“A televisão é maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.”


Meus especialíssimos leitores, a vida é tão retumbante que, muita vez, sinto vontade de sair por aí tocando bumbo, só para não tocar o foda-se. Explico melhor. A realidade não é só aparência. Esta, vocês sabem, engana. E ilude. Nem lembro porque estou falando isso... Ah, lembrei. Não sei se já disse a vocês que a universidade é o local onde a ignorância é elevada a sua máxima potência e levada as suas últimas conseqüências. Bem, se não disse, está dito. E já completo. O que eu quero mesmo lhes dizer é que, atualmente, espalham-se, como vírus em computador, as faculdades por ensino à distância, via televisão ou internet. Ou seja: o que já era ruim virou o mais cínico e deslavado engodo educacional. Um crime. Uma farsa. Onde o aluno finge que aprende e o professor faz de conta que ensina. E ambos se locupletam, um pela lomba e outro pela grana. Mas isso não tem importância.


OS FALACIANOS NÃO SABEM QUE A BAZÓFIA

É UM ESTADO DE ESPÍRITO DE PORCO.


- Quanta merda, quanto disparate, quanto desvario, quanto desatino! Ó escriba farisaico, quantos “quantos” ainda haveremos de proferir até que em sua cabecinha entre a verdade, final e absoluta, que você é, apenas e simplesmente, um redator de uma coluna cujo assunto foi, é e será para sempre o futebol? Será, minha mula burra, que você não percebe que não dá pra continuar enganando seus equivocadíssimos leitores? Toda sexta é aquele mesmo blá-blá-blá: “mas isso não tem importância” “mas o que eu quero mesmo lhes dizer”. Uma pobreza de estilo sem precedentes na história universal. Você, Dalton, é pobre de dar dó. Pobre de espírito, pobre de idéias, pobre coitado. Olhe pra você, escriba do satanás, olhe pra esse terno ensebado, olhe pra essa gravata puída, olhe pra esse colarinho encardido, olhe pra esses sapatos caindo aos pedaços... E você aí, com essa pose de santo barroco franciscano. Vai cagar no mato, vai, ô mosca de cavalo!

- Essa eu gostei, Geraldo! Ahahahaha... A gente tá ficando fera em xingar esse porco lazarento. Qualquer dia você mata o cara com um desses discursos. Ahahahaha...

- Mas a intenção é essa mesma, Ribamar. Quero ver esse idiota letrado estrebuchar na minha frente. Ahahahahaha...


- A gente podia era esfaquear o cérebro desse cancro sifilítico.


- Tá louco, Riba! Ia vazar tanta merda, mas tanta merda...

- Ihhh... nem fale. Ahahahaha... Já tô sentindo a catinga.


- É a modorra do terninho, da camisinha, da gravatinha e dos sapatinhos que já estão em adiantado estado de putrefação... Ahahahahahaha....


- Ahahahahahaha... Vamos fumar e respirar ar puro, que aí aqui tá foda o troço.


Os dois, de braços dados, rindo de minha cara, saem para fumar. Confesso, meus solidaríssimos leitores, não sei o que fiz para merecer toda essa pusilaminidade. Mas, como já lhes disse, não os odeio e nem lhes tenho amor também. O Geraldo, vocês sabem, fornica com a própria alma. É um atentado permanente contra si mesmo. A manutenção de sua integridade física é um desses fenômenos paranormais que, de tão inexplicáveis, melhor nem comentar. Ele está à minha direita e sua maior obstinação é se apoderar de minhas rocambolescas frases e tiradas. Aliás, acho que toda a sua vida é um plágio, um grande, cínico e deslavado plágio. Mas isso não tem importância. O que eu quero mesmo lhes dizer é que o caso do Ribamar é bem mais sério do que pensei há 10 anos, quando ele foi contratado. Na verdade, tudo começou há 8 anos, quando observei os primeiros pêlos crescendo em suas mãos. Em seguida, mês a mês, espinhas em uma quantidade incalculável foram aparecendo na mesma medida que o seu rosto naufragava em meio a esse turbilhão inquestionável de pus e sebo. Hoje em dia, confesso, me dá uma alegria enorme, vez em quando, vislumbrar o seu rosto em meio a essa massa disforme e decrépita que habita o seu semblante. O Ribamar, não sei se já lhes contei, há dois meses completou 22 anos. E é apontado pelo Guiness como o mais velho office boy do planeta. É nosso office old. Esses dias, o nosso diretor, o Dr. Horácio Penaleve, deu-lhe uma placa por seus 10 anos de leva e traz e, em discurso inflamado, disse, em alto e bom tom, que contava com ele por mais 10 anos nesta função e foi aplaudido de pé por toda a redação. Mas isso não tem importância.



SE O OLHO É A JANELA DA ALMA,
A BOCA É A PORTA DO CORAÇÃO.


O que eu queria mesmo lhes dizer é que todo esse chiste, essa pilhéria, essa bazófia, não me perturbam o espírito. Sim, eu sei, sofro as mais cavas humilhações por ser pobre e, principalmente, por não ver a menor possibilidade de reverter essa condição de inadimplente até na hora de pagar promessas. Não sei se já lhes contei que sou perseguido por cobradores desde os 7 anos, quando comprei fiado meu primeiro sonho de nata na bodega do seu Nicanor. Sim, desde os 7 anos sofro as mais cavas e profundas humilhações... Minto e já me corrijo. Não foi aos sete anos e, sim, aos seis. E também não era um sonho e, sim, uma malemolente e sensual maria-mole. Assim como também não era a bodega do seu Nicanor, mas o insubstituível armazém do seu Boleslau.
De lá para cá, não fosse a graninha do trabalho, como diarista, de Dona Zenóbia, minha doce esposa, provavelmente, eu estaria soterrado por uma avalanche de notas promissórias e cheques pré-datados. Mas não é isso o que eu queria lhes dizer e, sim, que a justiça brasileira é muito eficiente em dois momentos: na hora de chutar o cu dos pobres, mandando-os para a prisão, e no momento de absolver os ricos. Qualquer milionariozinho de bosta é capaz de, com alguns milhares de dólares, comprar as mais excêntricas sentenças, criando jurisprudências inomináveis. Eu, assim como vocês, meus injustiçadíssimos leitores, não quero ser dono da verdade e, sim, sócio, mas não uma sociedade anônima. E também não quero uma cota pequena, não. Quero, no mínimo, continuar a gerenciar minha loucura, orgulhosamente. A humildade, vocês estão carecas de saber, é tão efêmera e estranha que, no momento em que achamos que a temos, já, a perdemos. Muita vez, para sempre. Se bem que só o certo é para sempre. E o certo está escrito, com todas as provas, nos olhos e na voz daqueles amam de verdade. Mas isso não tem importância.


O VAMPIRO CHUPACABROU A LÓGICA.


O Trevisan chegou à noitinha lá em casa e, esganado, foi logo pulando sobre a travessa de broinhas de fubá mimoso e, voluptuoso, entornou o litro de licor de ovos. Fico assistindo, em silêncio, durante 20 minutos, dentes despedaçando broinhas e farelos espalhados por toda a varanda ou empurrados goela a dentro por sonoras talagadas. De bucho cheio até o gorgomilo, Trevisan descasca: .

- Fui ao hospital hoje.


- Eu fui ontem.

- Então diga pra mim, primeiro, o que aconteceu.

- Nada. Cheguei lá e ele estava com a cabeça coberta. Falei, falei e ele não fez nem um muxoxo. Depois de duas horas, desisti.


- Comigo foi diferente. Escute só. Cheguei no hospital, entrei no quarto sem bater e dei de cara como uma cena que você não vai acreditar.

- Vindo de você, eu acredito até na minha sogra.


- Então, saca. Entro e a Gertrudes, aquela enfermeira boazuda, estava fazendo uma chupeta no Torcedor.

- Ahahahahahaha... Não acredito nisso!


- Bote fé. Quando os dois se dão conta, eu já estou no meio do quarto.

- Puta que o pariu. E daí?

- E daí, cara, ficamos os três se olhando, completamente imóveis, durante uma eternidade e meia.


- O fato, Trevisan, por favor, só o fato.

- O fato é que o Torcedor levantou e, na maior cara de pau, falou; - “Bem, vamos dar uma mijadinha.” E foi para o banheiro. A Gertrudes, que estava com os peitões de fora, desfilou-os diante de minha boca sedenta, arrumou-os no sutiã e saiu, depressinha, se oferecendo toda.

- Ok. Mas o tio Torcedor?

- Voltou uns 10 minutos depois e disse que tinha passado a mão na cara.

- Como assim?

- Punheta, Dalton! Tocou uma bronha. Descabelou o palhaço. Como você é burro!

- Burro é você, animal. Se ele não estava falando, como você me explica?

- Então escute. Ele falou durante mais de três horas. Só que, na verdade, ele não falava comigo, pois não importava o que eu dissesse, ele continuava a falar consigo mesmo sobre a sua dupla personalidade. Súbito, mais sério que padre quando casa, levantou-se, foi até o espelho, cumprimentou-se e disse, afetuosamente: - “Até mais, meu velho! Foi um grande prazer dividir este espaço e esta prosa com tão magnânimo e beatífico ser. Sinto que seremos amigos para sempre.”
Falou, deitou na cama, cobriu a cabeça e desembestou a roncar, quase instantaneamente.


- Que loucura! Futebol, que é bom, nada?

- Nem uma sílaba.


- Estranho. Muito estranho. Mas vamos falar de coisas mais normais. Pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?

- Não deu. Eu bem que queria ir, mas tua mãe ameaçou morder meu bigolingo, caso eu tirasse de sua boca.


- Vai tomar bem no meio do olho do seu cu. Pegou ou não pegou?


- Claro, né, estúpido. Tá aqui, ó. O Véio disse que é pra você abrir, logo após a meia-noite, assim que piar a coruja. Fez sérias recomendações, disse que com o Além não se brinca.

- Sabe, Trevisan, eu acho que o Pai Véio...
O desgracido sai e não diz nem tchau, deixando um silêncio ensurdecedor à minha volta. Fico a pensar com meus botões de futebol de mesa e, pensando, meus olhos se voltam para cima. O céu agora é de um azul profundo e imenso. Meteoros kamikazes passam e deixam em luz sua última mensagem. Tudo é tão infinitamente pequeno, vago, etéreo. Deixo minha mente vagar, e de vagar em vagar, devagar e sempre vou me misturando com as estrelas, quasares, pulsares e sinto o universo inteiro pulsar em meu pulso. E sinto tanto que nesse enlevo, como por encanto, de quando em quando, astros me pisam, distraídos. Mas, de repente, não mais do que de repente, soa a primeira das doze badaladas que vão acabar o dia e começar um outro. Abro os ouvidos e perscruto as redondezas. Foi-se a segunda, a terceira... as doze badaladas soam uma após outra, até o silêncio gritar madrugada a dentro. Pego o envelope nas mãos e, trêmulo, espero piar a autorização. A noite é enorme e densa e, no peito, meu coração é um potro xucro escoiceando a jaula.
Mas isso não tem importância.



O ROBERTO PRADO É UMA BESTA!



O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Beco me ligou ontem às 4h47 da madruga e, na pressa de atender, quase esparramo pelo chão a Dona Zenóbia que, como eu, dormia profundamente.

- Alô, Roberto?

- Como você adivinhou que era eu?

- Palpite.

- Então jogue na loteria que você ganha.

- Menos, Beco. É que havia uma chance em 6 bilhões de que fosse outra pessoa.

- Ainda bem que você não estava dormindo.

- Imagine! Eu e Dona Zenóbia estamos dançando uma polca punk no último volume. Até tem uns caras com umas tochas acesas aí na frente de casa. É agora que o troço vai começar a esquentar.


- Ah que bom. Eu fico feliz por vocês. Mas me diga uma coisa, Dalton. Não é verdade que só os idiotas não se contradizem?

Quase caio duro, seco e arreganhado, mas com um esgar e a voz amarfanhada, arrisco:

- Sem dúvida, Beco.


- O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.

Fulminado e sofrendo arrancos fenomenais que mais parecem convulsões da alma, amenizo:

- Verdade, Beco, a grande maioria vive de certezas absolutamente incríveis, com base no comprar e no imitar. A materialidade do mundo se incorporou na humanidade de tal maneira que engessou a alma do povo diante de um aparelho de TV.

- O diabo pode até citar as Escrituras e pregar os 10 mandamentos quando isso lhe convém, não é verdade?


Engulo em seco 3 ou 4 recôncavos baianos, mas suando frio e com a língua quase presa, resmungo:

- Prode terr celteza, Beeco. Mmas bocê não acha que... A besta desliga, me deixa falando sozinho com meus botões e não me deseja nem bom-dia. Mas isso não tem importância.


UMA FLOR DE OBSESSÃO.



O que eu queria mesmo lhes dizer é que adoro ver o sol nascer. E começar bem o dia. Nada como um café bem quente e um cigarrinho logo depois para retemperar o espírito. É nesses momentos que deixo a imaginação voar e ir ao encontro de tudo que me faz feliz. Não sei bem o motivo, mas me ocorreu agora que, em 1978, minto, 1976, em uma noite de setembro - sim, o cheiro das flores no ar era todo primavera – eu e Nelson Rodrigues caminhávamos sem destino à beira da praia de Copacabana. A noite morna e a brisa fresca faziam uma combinação tão perfeita que milhares de pessoas, por toda orla, se sentiram convidados a sair de casa e passear. As ondas empurradas pela preguiça do vento chegavam à praia quase desmaiadas, quase sem espuma, quase sem som. Apenas conversas aqui e ali, risadas acolá, se espalhavam alegres pelo ar e nos davam a sensação de que o mundo é bom e viver a vida vale à pena. Nelson, a certa altura, tocou em meu ombro e, com o queixo, indicou-me a mesa vazia na calçada. Não lembro mais o nome do bar... Ah...lembrei! Bar da Ponta, isso mesmo, Bar da Ponta. Sentamos e um desfile interminável de belas garotas encheu nossos olhos. Vejam bem, meus voyeuríssimos leitores, uma mini-saia é o mesmo que uma cerca de arame farpado, pois cerca a propriedade, mas não tapa a visão. Mas isso não tem importância. O que vale é que eu e Nelson estávamos que estávamos. Ríamos de tudo e pra todos. Mas sem mais nem menos, súbito, Nelson fica taciturno e com os olhos turvados, desembesta:

- Há alguns dias, um amigo me parou na rua e, mais efusivo que capacho de patrão, entregou-me um exemplar de uma revista: -“Toma isso aqui e lê. É o Brasil.” Tentei dizer alguma coisa, mas, célere, ele já partia. Olho a revista e tomo um susto. Lá estava escrito Meu Bebê. Não entendi nada. Pensei: -“Que piada é essa?” Na capa, estava uma cara, em cores, de um bebê lindo. E eu continuava a não perceber que relação podia eu ter com uma revista chamada Meu Bebê. Fosse como fosse, levei aquilo pra casa. E, depois do jantar, fui apanhar a revista. Comecei com uma curiosidade muito rala e fui tomado, em seguida, de um interesse total. Sempre digo que a leitura é uma arte da releitura. Depois de ler, fui reler. E o meu espanto era cada vez mais profundo.
Antes, porém, de falar de Meu Bebê, Dalton, quero dizer duas palavras. Há pouco tempo, um colégio grã-finíssimo, de São Paulo, convocou os pais. Quase me esquecia de especificar que era um colégio dessas freiras “pra frente”. Simplesmente, a Madre queria comunicar que a Educação Sexual, naquele educandário, ia começar no jardim-de-infância. E dizia a religiosa: -“O sexo não tem mistério nenhum. Nenhum, nenhum.” E, portanto, meninos e meninas a partir de quatro anos iam ser esclarecidos sobre a atividade sexual. Não houve espanto, absolutamente. Os pais e mães ali presentes eram espíritos altamente compreensivos. A única dúvida era a seguinte: - como meninos e meninas, que não sabiam ler, nem escrever, nem assimilar, poderiam entender as aulas? E, então, risonhamente, a Madre explicou: - “Vão aprender com figurinhas.” Os presentes se entreolharam, maravilhados. Um senhor disse e repetiu: -“Interessante, muito interessante!” E, súbito, uma senhora ergueu-se. De pé, batia palmas. Logo outros, também de pé, aplaudiam, em delírio. A ninguém ocorreu que os garotinhos e garotinhas iam aprender com figurinhas o que a Polícia toma de certos jornaleiros e ainda os processa. Estavam ali pais, avós, tias, etc., etc. E todos ovacionando como na ópera. A Madre teve um sucesso de final de ato. Só faltou receber corbeilles, etc., etc. Umas das raras colunas da imprensa brasileira e internacional que ainda se espantam é a minha, Dalton. Todas as outras são divinamente compreensivas. Mas como ia dizendo, minha coluna pôs a boca no mundo. Não sei se você se lembra do que escrevi, mas eu lhe conto tudo. Dar “Educação Sexual” a menininhas de 4 anos já me parecia um escândalo. E, ainda mais, com figurinhas obscenas, dessas que alguns jornaleiros vendem, às escondidas, aos sátiros gagás. Disse eu, na ocasião, que a “Educação Sexual” é uma das mais deslavadas e cínicas imposturas do nosso tempo. Afirma o Raul Brandão, pintor de igrejas e de grã-finas: -“Sexo, e apenas Sexo, é coisa para bezerros, bodes, preás e jumentos”. No homem, Sexo é amor. Portanto, só se entenderia, não uma “Educação Sexual”, mas uma educação para o amor, etc., etc. Mas lendo Meu Bebê, verifico como foi ingênuo meu espanto. Afinal, o tal colégio grã-fino de São Paulo, embora usando figurinhas obscenas, lidava com meninos e meninas de 4 anos. Já a revista que ganhei de presente voa mais alto. Meu Bebê, como próprio título diz, trata de bebês. Você já imaginou, Dalton, a Educação Sexual começando no berçário? Visualize a cena – a criança que não provou ainda sua primeira chupeta aprendendo coisas que até a Paulina Bonaparte ignorava. Se a Messalina, aos 70 anos, lesse essa revista de bebês, havia de fazer esta autocrítica sucinta e lapidar: - “Eu sou uma analfabeta. Uma analfabeta sexual.”

Rimos de estufar a veia do pescoço. E, logo depois nos despedíamos. Nos abraçamos, forte, afetuosamente e, sob a luz das estrelas, caminhamos um para cada lado. Mas isso não tem importância.


TORCER É UMA ARTE NOBRE,

NÃO UMA ARTE MARCIAL.


O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato é por pontos corridos e vai que é um upa. Domingo passado, o Coritiba foi a Belo Horizonte e voltou com as calças arriadas. Perdeu de 3x2 para o Atlético Mineiro, depois de sair em vantagem e marcar dois gols em 18 minutos. Achou que o jogo estava ganho. Bastou o Gallo colocar o Petkovic em campo para o time desmontar. E desmontar mesmo, pois Rubens Cardoso e Marlos foram expulsos. Tomou 3 gols e poderia ter tomado mais. O Dorival, cara de pau, teve que fazer milagres para colocar o time em campo contra o bom time do Ipatinga ontem. Que joguinho nervoso! O Coritiba parecia o exército persa, de Xerxes, contra os 300 de Esparta. Bateu, bateu, bateu. E furou a excelente retranca armada pelo técnico Ricardo Drubscky. Furou não é a palavra certa. E já me corrijo. Depois do escanteio, a bola era rebatida e voltava para os pés coxas, até que caiu nos pés de quem conhece tudo. Paraíba recebeu e, como um verdadeiro ilusionista, lançou no vazio para si mesmo, driblando o zagueiro e deu um toque na bola que, maravilhada, como se tivesse asas, desviou da multidão ipatinguense que estava à sua frente e foi se alojar no canto direito superior para premiar o craque. Muitos torcedores, nesse momento, foram até a bilheteria e pagaram novamente o ingresso. O Maringas me mandou uma mensagem no celular dizendo que havia uma fila enorme e que continuava a crescer mesmo após o término do jogo. Mas isso não tem importância. Sábado, tem mais. O Coxa pega o Náutico, no Aflitos, às 18h20 e, na quinta, o Grêmio, no Couto Pereira, às 20h30. A torcida que nunca abandona deve estar mais aflita do que nunca, pois até agora o time alviverde só conseguiu 3 empates fora de casa e perdeu o resto. O Dorival, cara de bacalhau, deve estar preocupado, mas vai contar com a volta de alguns titulares. Vamos ver se o time tira o pijama. Já, na quinta, o caldo engrossa um pouco mais. Vem aí o Grêmio que está lá em cima na tabela. É a hora e a vez da torcida fazer valer o mando de campo. E a torcida coxa faz mesmo. E faz bonito.


O Atlético pegou o Vasco e fez o time do Dinamite virar um peido de velha. Jogou como se deve jogar, com alma, coração e raça. Dominou como quis o Vasco e poderia ter goleado. Isso dito assim, pode parecer exagero. E é mesmo, um cínico e deslavado exagero. Na verdade, não foi tão fácil assim. Pois aos 36 minutos do segundo tempo, quando o Atlético vencia por 2x1, o Vasco teve um pênalti a seu favor e, se marcasse empataria e a história do jogo poderia ser outra. Mas Gallato estava lá e, numa belíssima defesa, fez explodir de alegria o coração de cerca de 20.000 fanáticos. Um espetáculo, a defesa foi mais comemorada que o terceiro gol. Destaque também para a contundente jogada de Ferreira que deu origem ao segundo gol. No jogo de ontem em Recife, o Atlético só entrou em campo aos 25 minutos do segundo tempo, mas já tinha perdido para o Sport de 1x0. Mas isso não tem importância. Domingo tem mais. O Atlético pega em casa o Figueirense, às 16h00 e o Vitória, na quarta, no Barradão, às 19h30. Duas pedreiras, mas em casa a torcida inflama o time e faz todo mundo jogar que nem homem. Mas o Figueirense não é de se matar com a unha e sempre joga bem fora de casa. Todo cuidado é pouco. Quanto ao Vitória, a torcida do furacão vai ter que fazer macumba, com galinha preta, vela e cachaça, pois enfrentar o time baiano no Barradão é uma barra pesada. O Vitória tem despachado seus adversários e já é a grande surpresa do campeonato. O Atlético, fora de casa, tem tido um desempenho pífio, inconstante, alternando bons e maus jogos. Mas futebol é uma caixinha de surpresa.

O Paraná é só alegria, no momento. Venceu o Brasiliense, na Boca do Jacaré e o Barueri em casa. Com os 6 pontos, subiu na tabela e afastou-se da zona de rebaixamento. O time está mais consistente na defesa e o meio-de-campo, o ponto alto da equipe, tem criado muitas oportunidades mas o ataque ainda está devendo. Sábado, na Vila Capanema, pega o líder Corinthians, às 16 horas. Um pega imperdível. Assim como o ataque tricolor, a torcida também está devendo. Eis aí uma boa oportunidade para lotar a Vila e galgar mais algumas posições. A Fiel, podem ter certeza, vai estar lá e em bom número. Mas isso não tem importância.


DONA ZENÓBIA É UMA SANTA!
UMA SANTA!



O que eu queria mesmo lhes dizer é que Dona Zenóbia e eu não gostamos de televisão. Raramente, a ligamos para ver um noticiário ou um jogo de futebol. Gostamos muito é de ler e quase não nos sobra tempo para mais nada. Dona Zenóbia é de um ânimo realmente incrível, pois, apesar de trabalhar duramente o dia inteiro, após o jantar, ainda tem forças para sentar-se ao meu lado na varanda e ler um bom livro até chegar o sono. Faz isso sempre. E comentamos e lemos juntos alguns trechos. E, confesso, isso dá um toque todo especial para o nosso relacionamento. Às vezes me entristeço, por não ter podido custear seus estudos de Direito. Ela, com certeza, seria uma juíza (esse era o seu sonho) brilhante e, ponho minha mão no fogo, saberia fazer justiça. Seria incorruptível como o mais puro pergaminho. Mas isso não tem importância.

O que não posso deixar de lhes dizer é que anteontem, quando a coruja piou, abri o envelope que o Pai Véio Chico Fantasma me enviou, através do Trevisan. Ao retirar a mensagem de dentro do envelope, senti nas mãos a leve textura do papel e essa agradável sensação táctil contagiou-me todo o espírito. No papel branco e liso, a letra de Machado de Assis, simples e elegante, deu à mensagem a diagramação de um mestre na arte. Com toda a alma concentrada, leio: “Dalton, a primeira condição imposta a quem escreve é não aborrecer quem vai ler. Pense nisso com carinho. Assinado Machado de Assis.” Confesso a vocês, meus oportuníssimos leitores, a mensagem atingiu-me em cheio. E, na minha dispnéia emocional, já estou dizendo pra mim mesmo: -“Você abusa. Você abusa.” No mesmo instante desfilam diante de mim minhas metáforas, meu doce estilo novo, meus textos. E perguntei-me: -“Quem é o Dalton? Quem é o Machado? Quem é o Rodrigues?” Geralmente cada qual é um só. Cristo foi Cristo, exclusivamente Cristo e tão somente Cristo, do berço ao túmulo e dali para o Céu. E assim Nero, Maomé, Augusto dos Anjos, Leminski, Marcos Prado ou Guimarães Rosa. Mas no meu caso, será que eu sou eu mesmo? E se eu não for, o que será de mim? Escrever-se. Escrever a si mesmo. Qual será meu texto, afinal? Minha vida? Respondam-me ou calem-se para sempre, meus participativíssimos leitores. O certo é que mais uma semana se foi e julho está com os dias contados. O mês de cachorro louco vem aí e já sinto vontades de uivar pra lua. Mas isso fica para a próxima sexta. Por enquanto, poupem-me, porque de mim cuida, e muito bem, a Dona Zenóbia, minha doce e deliciosa esposa. Até lá.



Dalton Machado Rodrigues
daltonmrodrigues@gmail.com






quinta-feira, julho 24, 2008


metamorfose


meu papagaio é preto

dorme de ponta cabeça

chupa sangue

fica morcegando o dia inteiro

e, às noitinha, quando sonha,

pensa que é o Batman


Thadeu e Édson




lógica curitibana



não há flores no vaso sanitário do resgate social

curitiba te come belas beiradas

a tônica aqui é o ponto final

no cemitério

se ouve o clamor das frases cortadas



Thadeu






quarta-feira, julho 23, 2008




solidão sideral


daquela estrela até esta outra
a noite é uma camisa de força
em claro adeus à companhia

solidão desta estrela
à solidão daquela lá
tão longe, tão só
cansa até pra falar


Antonio Thadeu Wojciechowski



solitário


Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta

Por trás dos ermos túmulos um dia

Eu fui refugiar-me à tua porta



Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos conforta

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta


Mas tu não vieste ver minha desgraça

E eu saí como quem tudo repele

Velho caixão a carregar destroços


Levando apenas na tumbal carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!


Augusto dos Anjos

( 1886-1914)




sexta-feira, julho 18, 2008




Bola Perdida

“ Época triste a nossa... mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito!”


“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”


Meus universalíssimos leitores, minha clara filosofia de vida é “tudo ao mesmo tempo agora já neste momento inclusive antes e depois!”. Ou seja: escreveu não leu é analfabeto. Ou ainda: creio, na prática, na teoria da relatividade. Eu, vocês sabem, sou um tipo inútil e profundamente sobressaltado com a hipocrisia, preconceito, ignorância e desfaçatez da maioria das pessoas que habitam este cisco de universo que é o planeta Terra. É tão mais fácil ser sincero e verdadeiro que, muita vez, me pego a pensar com meus botões de futebol de mesa sobre essa inversão de valores que campeia esse mundinho de Deus. Mas não deixemos que nada nos desanime, pois até um pé-na-bunda nos empurra pra frente. O que eu queria mesmo lhes dizer é que a gente pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa. O verdadeiro ser aparece rapidinho, pois brincando brincando, o monstrinho toma forma a olhos vistos. Isso porque a quantidade de preconceito que cada um de nós tem dentro de si é inversamente proporcional à de inteligência. E, sendo assim, podemos concluir que a ignorância não fica tão distante da verdade quanto ficam o preconceito e a hipocrisia. Mas, se já vivemos muitas dessas desilusões com esse tipo de gente, é sempre bom lembrar que pra frente tem mais. E não devemos nunca nos esquecer que chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais eficiente de atrair outras. Mas isso não tem importância.

OS FALACIANOS BAZOFIAM ATÉ A MÃE
DO ANJO DA GUARDA.

- Como assim? Como assim? Mas meu deus do céu, será que esse imundície não se flagra? Se não tem importância então pra que todo esse blá-blá-blá, ô cancro sifilítico? Vai gastar essa conversa fiada com tua mãe, escriba do diabo. Aqui ninguém te agüenta mais, vai pra puta que te pariu!

- Já reparou, Geraldo, o velho louco está cada vez pior. Agora, começou com essa de moralismo pra cima de seus burríssimos leitores. Não consigo imaginar alguém perdendo tempo com essas asneiras...mas, enfim, tem louco pra tudo neste mundo. Por mim, eu dava um tiro na boca desse filho da puta.

- Ahahahahaha...Riba, além de dar tiro, vamos ter que amarrar as mãos do idiota, pregar a língua, salgar e deixar no sol. Por que se não o cara é capaz de continuar atormentando a gente.

- Ahahahahaha... O cara vivo já é uma alma penada, imagine morto. Ahahahah...o terninho, a gravatinha e o sapatinho finalmente iriam descansar em paz.

- Ahahahahahah.... Ia mais gente ao enterro se despedir deles do que do Dalton. Ahahahaha...

Eu, meus confidentíssimos leitores, vocês sabem muito bem, não reajo como um ser normal diante da bazófia, do chiste e da pilhéria. Vejam bem. Não sei se já disse isso a vocês, mas se não disse, digo-o agora, eu sou um inadimplente até na hora de pagar pelos meus pecados. Sim, se Deus apresentasse a conta, eu teria imensas dificuldades para zerar meu débito e, provavelmente, Ele me partiria dessa pra pior. Mas o que eu quero mesmo lhes dizer é que sofro as mais cavas humilhações desde que, aos 6 anos, comprei fiado o meu primeiro Sonho de Valsa no empório do seu Boleslau. Minto e já me corrijo. Não era um Sonho de Valsa e, sim, uma mirabolante e auspiciosa Maria-Mole. E também não era nenhum empório, mas um simples e humilde armazém de bairro. De lá pra cá, não pago integralmente nem promessa. Pois, como já lhes disse, o mês é grande demais para o meu salariozinho de menos. Mas isso não tem importância.

- Então não fale, ó escriba, filho de um égua! Geraldo e Ribamar, pilheriam-me e saem, de braços dados, para fumar. Não lhes quero mal nem bem também. O Geraldo, vocês sabem melhor do que eu, é um ser essencialmente contraditório. Desde que cheguei aqui no jornal, ele senta-se à minha direita e tem sido capcioso até quando me cumprimenta. Sim, meus incredulíssimos leitores, até quando me cumprimenta. Nossa relação é puramente social, enfadonha, uma gastura só. E, como conseqüência da minha ausência em seu abraço, ele se amasiou com Ribamar. Digo amasiou e já não digo, porque o termo não corresponde à verdade. O correto é dizer que essas duas múmias se uniram contra mim, de corpo e alma, com dois abjetos intuitos: rir de minha pobre pessoa e invejar minha espartana capacidade de escrever. O Ribamar, o ser que senta à minha esquerda, já cansei de dizer aqui, é uma espinha. Mas não uma espinha adolescente, não. Não, não é uma espinhazinha classe média. Não mesmo. É, sim, um criadouro inesgotável de pus e sebo. São centenas e centenas de protuberâncias deformando, moldando, estigmatizando a sua cara. Só para vocês terem uma idéia, o seu rosto é a última coisa que aparece em sua face. E, confesso, é um momento de grande alegria encontrá-lo, de vez em quando. Mas isso não tem importância.

PÉ EM DEUS E FÉ NA TÁBUA?

O que eu queria mesmo lhes dizer é que não sou nem um pouco modesto quando me refiro à minha extraordinária capacidade de escrever. “Nem tanto. Nem tanto.” Alguns mais apressadinhos já devem estar me contrariando em alto e bom tom. Mas me explico melhor e, espero, assim não daremos vez à maledicência e ao mal entendido. O certo é que saber escrever é saber pensar. E saber pensar é saber ler, estudar, ouvir, ver, comparar, analisar, enfim, ter consciência de que tudo está intimamente ligado e caminha para o mesmo fim. Isso é vida? Ler até o olho fazer bico e, cego, continuar às apalpadelas buscando sentidos que até o braile passa por cima? Querer tirar de cada palavra, vírgula, ponto, letra, a essência da beleza, espremendo, rasgando, dilacerando, moendo a própria carne? Ora, vamos e venhamos, isso não pode ser. Ou pode? E vai que você começa e dá certo. Aí você vai querer me agradecer, mas eu não estou nem aí para agradecimentos. Só não quero chamar ninguém de burro. Mas isso não tem importância, meus sapientíssimos leitores.

O VAMPIRO É O INCRÍVEL
CHUPA-CABRAS.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Trevisan chegou à noitinha lá em casa na terça-feira e, cão faminto, esparramou-se sobre a tigela de broinhas de fubá mimoso e, cavalo sedento, mergulhou no litro de licor de ovos e, ogro satisfeito, então, descascou:

- Vai à puta que te pariu, Dalton. O Torcedor está louco. Cheguei ontem lá no hospital e, sem mais nem menos, ele voltou a falar.

- O quê? O tio falou?

- Falar não é o termo mais certo. Ele dialogou consigo mesmo na minha presença. Aliás nem sei se ele percebeu que eu estava lá.

- Ahahahah... Essa é boa. Me conte os detalhes.

- Bom, eu cheguei, cumprimentei e ele nada. Mas, súbito, ergueu-se da cama, foi até o espelho, esticou o braço como se fosse dar a mão a alguém e apresentou-se a si mesmo. “Muito prazer, sou o Torcedor. Estou encantado em conhecê-lo. Sinto que sua nobre presença alegra e beatifica este ambiente hostil onde estou reservado.” Imagine minha cara de espanto, Dalton.

- Então o velho pirou de vez.

- Você conhece teu tio melhor do que eu, mas a verdade é que fiquei ouvindo tudo aquilo durante 6 horas sem...

- 6 horas?

- E 42 minutos. Ele não parava nem para respirar. Parecia que estava tentando impressionar sua imagem no espelho.

- Ahahahaha...

- De repente, deu um grito: “Não me fale no Dunga!” E quedou mudo. Deitou na cama, cobriu a cabeça e ainda disse com a voz cansada. “ E não me apareça nunca mais pela frente!”

- Que coisa! Você falou com o médico?

- Falei, mas ele apenas me disse que também faz isso todos os dias desde que saiu do Bom Retiro, onde esteve internado.

- Ah que bom. Mas mudando de assunto, pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?

- Não. Eu estava trepando com tua mãe e no meio do rala-rala, chupa-chupa, tira-enfia- enfia-tira, ela disse que ia buscar pra mim. Porra, Dalton, você me conhece há quantos anos? E ainda faz esse tipo de pergunta? Está aqui, idiota. Mas lembre-se, o Véio disse que é para você abrir o envelope somente às 3h33 da madrugada, hora em que os demônios estão divididos ao meio.

- Porra, que conversa! Você não acha que todo esse misticismo é...
O Trevisan sai e não diz nem tchau. Me atraco com as broinhas e dou umas belas talagadas no litro de licor, antes que Dona Zenóbia, minha doce esposa, o faça. A bebida me amolece as pernas e me estendo largamente sobre a rede. É tão bom olhar para o céu em noite de lua cheia... De repente a Lua é todos os pensamentos e todos os pensamentos têm luz, silêncio e gravidade. Lembro do Torcedor e rio de mim mesmo. Mas isso não tem importância.

O NELSON RODRIGUES É UM ESPELHO.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que há muito tempo, acho que era 1972, isso 1972. Não, não era. Era 1970. Lembro-me bem, a noite estava calma, o ar, adocicado, e todas as flores do Rio de Janeiro cantavam “Primavera” junto com o Tim Maia. Eu e Nelson caminhávamos à procura de um bar em Copacabana. No caminho, ele vazado de luz como um santo de vitral, me dizia:

- Dalton, posso não ter outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi com a maior e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina e, repito, não há conversa intranscendente. E, se duas pessoas se falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que pouco inteligente, tem sua melodia irresistível.
Há uma semana, por exemplo. Eu ia passando e vi duas senhoras no ponto de ônibus. Conversavam. Estaquei e resolvi ouvi-las. Eram duas gordas e uma delas perguntava à outra: - “Sabe onde fica a Praça Serzedelo Correia?” A outra respondeu: - “É pertinho daqui. Ali.” E mostrava com o dedo: - “Está vendo? Ali.” A primeira olha e suspira: - “Então vou tomar o ônibus.”
A distância que a separava da praça era uma quadra. Comecei a ver ali um mistério insuportável. Por que tomar um ônibus para ir de uma esquina à outra esquina? Foi mais ou menos o que disse a segunda senhora: - “Não precisa ônibus. Para que ônibus? Tão pertinho.” Novo suspiro da primeira: - “Estou tão machucada. Vou mesmo de ônibus.”
Foi aí, e só aí, que eu e a outra percebemos a evidência total. Estava, sim, bem machucada. Na minha infância, dizia-se “amarrotada”. E ela estava amarrotada. O olho esquerdo, ou direito, tinha um halo negro, um halo que parecia feito de rolha queimada. Um das orelhas (não vi a outra) estava enorme como a de um boxeador. Enorme e vermelha ou roxa. A simples palavra repercutia, dolorosamente, lá por dentro. E, então, compadecida, a outra quis saber: - “Mas que foi isso? Desastre?”
Parecia um bárbaro atropelamento. E havia, na conversa, um clima folhetinesco. Não perco uma palavra. Veio a resposta: - “Foi meu filho que me deu uma surra.” Dizia isso sem nenhum horror, em tom castamente informativo. Era como se não fosse ela a mãe, e fosse o filho da vizinha o espancador. A segunda senhora deixa passar um momento. Ainda espicha o pescoço para ver o ônibus. E pergunta, com relativo interesse: - “Bateu na senhora?” Geme: - “Bateu.” E havia no que uma perguntava, e a outra dizia, uma naturalidade hedionda. – “Bateu por quê?” Disse: - “Me pediu dinheiro. Eu não tinha. Já sabe . Meu filho tem um gênio que Deus te livre. Muito nervoso.” A segunda olha no fim da rua: - “E esse ônibus que não vem?” Espia o relógio e suspira: “Caso sério.” A primeira está dizendo: - “Quando respiro...” Respira fundo: - “Dói aqui.” E espeta o dedo: - “Bem aqui.”
E, súbito, chega o ônibus. Uma subiu, fácil e lépida. Mas a mãe espancada foi uma dificuldade. Dizia baixinho, como se o motorista pudesse ouvi-la: - “Espera, espera.” O cobrador fica olhando e reclamando: - “Como é, minha tia?” Lá fui eu ajudá-la. Um outro apareceu. Foi empurrada, quase carregada. Gemia: “Ai, ai.” Finalmente, entrou. Arquejou para mim e para o outro: - “Deus te abençoe, Deus te abençoe!” O cobrador deu o sinal e o ônibus partiu. Começou, para ela, a longa viagem de uma esquina para outra esquina.”

Quando finalmente sentamos no Bar ...( esqueci o nome), em Copacabana. O Nelson, soltando fogo pelas ventas, me perguntou:

- Dalton, será que essa mãe não tem marido? Ou um outro filho? Ou vizinho?

- Ela pode ser viúva, com um filho único.

- Mas teria vizinhos. E, além disso, há a imprensa, o rádio, a televisão, o congresso, o senado, as forças armadas, etc...etc. Um filho espanca a mãe e fica por isso mesmo? Admito que não se faça nada. Mas o que não entendo é que ninguém se espanta. O brasileiro se espanta cada vez menos. A própria vítima não me pareceu espantada. Lembro-me de que ao contar a surra inflexionava como se tivesse pena, não ódio (ódio nenhum), pena do filho. Era uma espécie de ternura apiedada. Se a outra condenasse o rapaz, ela o teria defendido talvez. Talvez, não. Estou certo de que o teria defendido. E, se a apertassem muito, acabaria dando razão à surra. E iria para o espelho acusar a própria imagem: - “Bem feito, bem feito!” Essa mãe, Dalton, capaz de dar razão à surra, existe aos milhares, existe aos milhões, em todas as terras e em todos os idiomas. É o próprio mundo - não, não - , é a própria família que atira pela janela todos os seu valores.”

Nelson, respirou profundamente e espiou o fundo dos meus olhos:

- “Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, dou de cara com a gorda amarrotada, abraçada com o filho espancador. E sabe que ela estava feliz com aquele olho cor de gangrena?”

Rimos sem saber exatamente do quê. No entanto, a noitada foi admirável e bebemos até o sol sair e o bar se pôr.
Mas isso não tem importância.

UMA PORTA QUE NUNCA FECHA,
COMO SE ABRE?

Ontem, às 4h45 o telefone toca e corro para atender, pois Dona Zenóbia já dormia.

- Alô?

- Oi, Dalton! É o Beco.

- Só podia ser. Ninguém mais, no mundo, me liga neste horário.

- Ah... que bom. Você já estava dormindo?

- De jeito nenhum. Dona Zenóbia estava batendo o bumbo e eu,
tocando tuba.

- Vão se apresentar em algum lugar?

- Sim, sim. No Circo Irmãos Queirolo, dia 30 de fevereiro.

- Vou estar lá, vou estar lá!

- Mas que que manda, Beco?

- Dalton, nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia. É ou não é?

Tremo e sinto um forte solavanco dentro da alma. Sinto que muitas portas se abrem em meu cérebro. Mas arrisco:

- Com certeza, Beco.

- Então é por isso que é mais fácil separar a água do vinho do que a hipocrisia da verdade no julgamento das ações humanas?

Suando frio, com uma cava inquietação no espírito e o coração na goela, tento ser normal:
- O que realmente você está querendo me dizer, Beco?

- É que, às vezes, procura-se parecer melhor do que se é. Outras vezes, procura-se parecer pior. Hipocrisia por hipocrisia, prefiro a segunda.

Com as entranhas já dando arrancos fenomenais, pela minha boca trêmula, escancaro:

- Eu também. Mas, Beco, eu acho que... Desliga e não diz nem bom dia. Vou para a varanda e a lembrança das 3h33 da madrugada de anteontem me provoca um profundo arrepio. Abri o envelope na hora exata. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Retirei a folha branca como o linho e nela, gravado, em letras magistralmente escritas: “ Dalton, não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão. Pense nisso com carinho. Assinado: Machado de Assis.” Confesso, meus superticiosíssimos leitores, que a mensagem, assim, jogada na minha cara, quase me nocauteou. Não é todo dia que se lê uma verdade dessas, ainda mais quando ela vem do além. Mas isso não tem importância.

FOI, É, SERÁ O QUE DEUS QUISER.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato é por pontos corridos e vai que vai. O Coritiba foi a Goiás e trouxe na mochila um empate em 2x2. Justo. O time entrou em campo soltando fogo pelas ventas e Keirrison, aos dois minutos, já colocava o coxa em vantagem. Mas o alviverde goiano foi pra cima e virou, em duas bobeadas da defesa. Em desvantagem, o Coritiba novamente foi pra cima e num belíssimo chute do Tiago Bernardi deixou tudo igual. Aí o coxa achou que poderia ganhar o jogo. E partiu com tudo e com todos. Eis que aos 47, surge a chance. A bola sobra livre para Michael, com o goleiro completamente batido, e o que ele faz? Marca o gol e parte pro abraço? Não, Michael ao ver o goleiro estirado e as caras desesperadas dos zagueiros, se compadece, se apieda e, com o coração enternecido, põe a bola para fora. Transido de luz, fica de joelhos e um santo, torcedor do Goiás , desce dos céus e beija-lhe a fronte. Michael, levitando, sai do estádio. E em seus sonhos vê-se aplaudido, carregado em triunfo pela torcida do Goiás. Até ser atirado na dura realidade do banco de reservas pelo Dorival, cara de pau. Essa até o Maringas aplaudiu.
Ontem, foi a vez do Flamengo aprender que no Couto Pereira não tem pra ninguém. Apesar de ter maior volume de jogo em boa parte do tempo, foi o coxa que marcou aos 18 minutos, através de Rodrigo Mancha, o nome do jogo. Também merecia um prêmio o Edson Bastos pelas duas estupendas defesas que garantiram o resultado. Mas, o verdadeiro espetáculo não aconteceu dentro do campo e, sim, nas arquibancadas, onde uma multidão incontável, vestida de verde e branco, cantava, pulava, berrava, plantava bananeira e festejava a vitória do verdão. A lua, cheia, iluminou ainda mais a felicidade alviverde. A festa saiu do estádio e continuou nos bares de toda a cidade, madrugada a dentro. Mas isso não tem importância.
Domingo tem Atletiba, no Mineirão, às 18h10 e quarta o Ipatinga, no Couto. Os dois estão mal das pernas, se o coxa jogar seriamente pode ficar com os 6 pontos e pular da 10ª posição para a zona da libertadores. É só o Dorival, cara de bacalhau, parar de inventar.

VIA CRUCIS.

O Furacão, que vinha de uma derrota para o Fluminense, empatou com o Internacional domingo e perdeu para o Cruzeiro, na quarta. O Roberto Fernandes não sabe mais o que fazer para o time vencer. O melhor jogador em campo, no Mineirão, foi Fábio, goleiro do Cruzeiro. O Atlético jogou muito bem e teve várias chances de marcar. Mas perdeu no finzinho, com um gol de Elicarlos, aos 40 minutos do segundo tempo. Resultado injusto. O Furacão volta a campo neste domingo, no Joaquim Américo, contra o Vasco e,, na quinta pega o Sport Recife, na Ilha do Retiro. Duas encrencas, das brabas, pela frente. O negócio é torcer para que o Edinho, recém contratado, faça valer a sua experiência e bote a casa em ordem para o Roberto Fernandes trabalhar em paz.

O Paraná também continua em seu calvário. Perdeu em casa para o bom Juventude e despencou na tabela. Está na 16ª colocação e pega o instável Brasiliense, hoje, no Boca de Jacaré, às 20h30. Na terça, tem o bom Barueri, na Vila Capanema. E tudo pode acontecer. A fúria está com os nervos à flor da pele e, a essas alturas do campeonato, pedir paciência já é pedir demais. Mas isso não tem importância.

PRETO NO BRANCO.

Mas o que eu queria mesmo lhes dizer é que mais uma semana se foi. E quanta coisa pode acontecer em 7 dias, meu Deus! Às vezes, meus queridíssimos leitores, os dias são mais rápidos que a lâmpada; em outras, parecem se arrastar interminavelmente. O que fazer?, essa é a vida. E não tem outra. A verdade está aí, na nossa cara. Aquele que não a conhece não passa de um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso. Pensem nisso, com carinho.
Poupem-me, que de mim cuido eu.
Até sexta.

Dalton Machado Rodrigues
daltonmrodrigues@gmail.com